05 outubro 2003

EPC ou A ampla e empolgante experiência dos verdadeiros poetas

Manuel de Freitas não é um "novo poeta português". É um poeta. Um grande poeta dos nosso tempo. Um dia tinha de acontecer. Eduardo Prado Coelho, que não gosta de chegar tarde, voltaria "os ombros pós-estruturalistas" e falaria de Manuel de Freitas. Fá-lo, no meu entender, da pior maneira.
Começou bem, com uma recensão ao seu último livro ( por acaso ainda não distribuí­do na capital nacional da cultura). Era uma crónica que tinha de aliciante algumas citações de poemas ou fragmentos. Ontem, de novo no mil-folhas, interroga-se sobre a "nova poesia portuguesa".
Manuel de Freitas seria, para alguns, o aglutinador de uma tendência da mais recente poesia portuguesa explicitada nos textos que acompanham um volume colectivo intitulado poetas sem qualidades
Para quem não conhece lembramos que se trata de uma belíssima antologia editada pela Averno em 2002, mas que só este ano teve alguma difusão . Manuel de Freitas antologia nove poetas, dos quais escolhe sete poemas. Além disso escreve um prefácio e uma breve nota biográfica de cada um dos seleccionados (ana paula inácio, carlos alberto machado, carlos luís bessa, joão miguel queirós, josé miguel silva, nuno moura, rui pires cabral, vindeirinho e anónimo). No prefácio, reivindica para o tempo actual, um estilo novo. Esse estilo só se pode definir, ainda, por aquilo que não é. "Estes poetas não são limadores das arestas que a vida deveras tem" e por isso eles são muitas vezes os poetas da nossa cidade desencantada. Mas, correlativamente, eles recusam a auréola "mediática", o "culturalismo auto-suficiente", a "paráfrase de luxo".
O livro poetas sem qualidade tem uma capa sobre fotografia de Sérgio Eloy e a anotação de dele"se terem feito 350 exemplares" (o número de leitores que em dias de fausto A Natureza do Mal se orgulha de ter). Inicia-se com uma citação de Herberto Helder.: "Os poetas estão a avançar com uns vagares de galinholas. Porra."
Entretanto estes poetas avançaram. Manuel de Freitas publicou quatro livros. Carlos Alberto Machado, Carlos Luí­s Bessa, José Miguel Silva e Rui Pires Cabral, pelo menos, editaram excelente poesia. Outros, que poderiam ter pertencido a esta recolha e não desdenhariam o rótulo de sem-qualidades, continuaram a escrever, e em alguns casos a publicar, discretamente, os tais 350 exemplares, que não esperam nem recensão nem crí­tica. Mas que, numa rede obscura de comunicação, sabe-se lá porquê, fazem esta porra avançar.
Colateralmente, um editor do Norte,veio à  liça com uma polémica que teve os seus pontos baixos em textos de uma publicação chamada Apeadeiro e numa troca de opiniões rotulada de autárquica, no mil-folhas.
Nessa polémica, jorge reis-sá chamava aos poetas sem qualidades (estou a simplificar mas isto já vai longo para post) adoradores de latrinas sem sentido do transcendental, que é, como sabem aquele dom, como a fé nos crentes, que os verdadeiros poetas ostentam nas nobres frontes.
Pois é essa crí­tica que EPC, agora, de cernelha, veicula.
Leia-se e espante-se:Freitas seria um cultor de uma "poesia de experiência" cuja experiência não é particularmente ampla ou empolgante: e, EPC cita sem dizer quem, "o mero cliché de uma marginalidade de papelão, com as constantes referências ao alcoól, aos bares, etc, ou a simples observação directa do que ocorre num centro comercial, no supermercado ou no café". E, agora é EPC sem aspas, a finalizar: Daí que estas posições resvalem para uma facilidade medí­ocre a que falta o que Fernando Pessoa considerava essencial." uma noção da gravidade e do mistério da vida".
Lê-se e pasma-se. Afinal EPC é um jorge reis-sá que aprendeu a escrever. Pensar que esta gente pode, com a rápida leitura oblíqua que faz para alimentar a Cacofonia, ser injusta, vingativa, redutora- condenar a poesia a avançar como galinholas.
Os poetas como Freitas continuarão, "a desabrigo, a dizer o que dizem".

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