O Cartulário
Inimigo formidável é o que encontrei
nos sítios que percorria
desarmado. Era o fim de tarde
mas parecia manhã
na mata de carvalhos em outubro.
A águia bonelli
massajava em vagares
o cimo da colina
e de vez em quando
relinchava um cavalo
sem alarme.
Inimigo formidável é o que apareceu
nos trilhos que os amigos percorrem
confiantes
Ele é implacável e é frágil
ataca onde não estou
e por isso parece inofensivo
Não percebo de onde vem
Nem as minhas mãos recordam
os horríveis crimes que me grita.
Alguma coisa lhe deves ter feito
Dizem-me incomodados os amigos
O inimigo formidável
poupa-me a cara
- chama-lhe máscara
Não golpeia o meu corpo exposto
- chama-lhe armadura
Os meus amigos seguiram o trilho
até ao destino desta tarde de outono.
Só a águia assiste ao meu combate.
Porque fiquei? quando até os cavalos sobem à portela
Porque mostro ao cartulário
os registos das minhas propriedades?
Porque me troca os guias
As cartas topográficas, a mochila?
Qualquer coisa que nem sequer notaste...
Posso morrer, aqui
De um inimigo assim?

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