
A constituição de 1975 não era bem democrática. Na altura não tive coragem de votar contra, nem de o dizer, mas agora parece-me muito mais fácil ver as coisas como elas são, sem a deformação que a proximidade, a necessidade de sexo, a emoção e a ilusão juvenil criam. Às vezes penso na ironia de estar a criar um estado cada vez mais forte e simultâneamente mais fraco. à medida que o esvazio das competências providenciais. A ilusão leninista havia eu de a realizar
do contrário, e sem saber, como o personagem de Molière escrevia prosa. De cada vez que entrego à sociedade mais Estado, sinto o Estado ficar mais forte. O Estado? Agora eu sei o que é. Sei os nomes com que se escreve. Somos muitos e nos lugares certos. Ou a caminho. Sabemos reconhecer-nos. De ombros cerrados, como quando avançamos nas cerimónias, assustamos. E os nossos ombros são tão largos, agora. Os costureiros sabem vestir-nos, os fotógrafos apanham-nos do melhor ângulo, os jornalistas encontram as palavras certas quando falam de nós. Os polícias batem sempre do lado certo. Este é o melhor dos mundos possível. Estamos aqui para os próximos mil anos.
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