05 dezembro 2003

Sousa Bastos 1

O Salão Nobre da Câmara de Coimbra é horrível. Cadeirões rocócó para os dignitários e uma mesa decorada com os mesmos motivos de pesadelo gótico. Ontem, foi palco de uma sessão convocada pela Câmara, pelo Comissário da Capital da Cultura e pelo Movimento Sousa Bastos vivo. Parece que há dois anos, quando, em plena campanha eleitoral, o candidato da coligação Por Coimbra regressava a casa, encontrou à  porta da ruí­na musgosa que em tempos foi o Sousa Bastos, um homem tolhido pelo frio, empunhando heróicamente um cartaz reclamando a reconstrução do Sousa Bastos como auditório e centro de artes performativas. Encarnação aderiu ao Movimento e prometeu o resgate do Teatro, no âmbito de uma recuperação e revitalização da Alta. Agora, dois anos depois da vitória, o Presidente da Câmara parece patrocinar uma solução que integra no futuro Sousa Bastos uma componente cultural, a ser utilizada por agentes da cidade, a par de uma área destinada a Habitação, com a qual pretende financiar parcialmente o projecto. Os habitantes de Coimbra que ontem responderam à  convocatória, quase todos simpatizantes da iniciativa Sousa Bastos vivo, tentaram ganhar o Presidente da Câmara para uma solução que não desfigurasse a sua declaração eleitoral, entendida na altura como um apoio sem reservas ao programa do Movimento.
As intervenções foram de grande carga emocional. O homem de 67 anos que viveu a destruição da alta e não quer ser cumplice de mais destruições. O jovem que reivindica o privilégio de continuar a ir ao pão ao senhor António e encontrar, de robe, o senhor João, enquanto se ouve, mais acima, o violino da Filipa. O outro que denuncia os centros históricos cemitérios, formatados para os turistas depois de expulsos os seus moradores. A certa altura um professor de História evoca a velha Alta antes da demolição estado-novista e diz: "Sabem que houve muito pouca gente a protestar?" E enfaticamente repete: "Fiz um estudo e, na época, mesmo tendo em conta as circunstâncias, foi quase tudo silêncio."
Quase ninguém falou quando o camartelo entrou na Rua Larga e na Rua de Camões e deixou a parte alta da acrópole como depois de um bombardeamento inimigo. Sem lí­deres, nem porta vozes, sem aliados capazes de os dizerem, os futricas da Alta foram ocupar humildemente as casinhas do Bairro Marechal Carmona e do Bairro de Celas. Era o tempo do Portugal dos pequeninos, tudo no sí­tio como convinha e um grande silêncio respeitador à volta. Quase ninguém falou quando se encheu o Campo da Morte do Tarrafal e o Tarrafal se encheu de mortos. Quase ninguém falou no Holocausto antes do fim da guerra.

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