Sousa Bastos 1
O Salão Nobre da Câmara de Coimbra é horrível. Cadeirões rocócó para os dignitários e uma mesa decorada com os mesmos motivos de pesadelo gótico. Ontem, foi palco de uma sessão convocada pela Câmara, pelo Comissário da Capital da Cultura e pelo Movimento Sousa Bastos vivo. Parece que há dois anos, quando, em plena campanha eleitoral, o candidato da coligação Por Coimbra regressava a casa, encontrou à porta da ruína musgosa que em tempos foi o Sousa Bastos, um homem tolhido pelo frio, empunhando heróicamente um cartaz reclamando a reconstrução do Sousa Bastos como auditório e centro de artes performativas. Encarnação aderiu ao Movimento e prometeu o resgate do Teatro, no âmbito de uma recuperação e revitalização da Alta. Agora, dois anos depois da vitória, o Presidente da Câmara parece patrocinar uma solução que integra no futuro Sousa Bastos uma componente cultural, a ser utilizada por agentes da cidade, a par de uma área destinada a Habitação, com a qual pretende financiar parcialmente o projecto. Os habitantes de Coimbra que ontem responderam à convocatória, quase todos simpatizantes da iniciativa Sousa Bastos vivo, tentaram ganhar o Presidente da Câmara para uma solução que não desfigurasse a sua declaração eleitoral, entendida na altura como um apoio sem reservas ao programa do Movimento.
As intervenções foram de grande carga emocional. O homem de 67 anos que viveu a destruição da alta e não quer ser cumplice de mais destruições. O jovem que reivindica o privilégio de continuar a ir ao pão ao senhor António e encontrar, de robe, o senhor João, enquanto se ouve, mais acima, o violino da Filipa. O outro que denuncia os centros históricos cemitérios, formatados para os turistas depois de expulsos os seus moradores. A certa altura um professor de História evoca a velha Alta antes da demolição estado-novista e diz: "Sabem que houve muito pouca gente a protestar?" E enfaticamente repete: "Fiz um estudo e, na época, mesmo tendo em conta as circunstâncias, foi quase tudo silêncio."
Quase ninguém falou quando o camartelo entrou na Rua Larga e na Rua de Camões e deixou a parte alta da acrópole como depois de um bombardeamento inimigo. Sem líderes, nem porta vozes, sem aliados capazes de os dizerem, os futricas da Alta foram ocupar humildemente as casinhas do Bairro Marechal Carmona e do Bairro de Celas. Era o tempo do Portugal dos pequeninos, tudo no sítio como convinha e um grande silêncio respeitador à volta. Quase ninguém falou quando se encheu o Campo da Morte do Tarrafal e o Tarrafal se encheu de mortos. Quase ninguém falou no Holocausto antes do fim da guerra.

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