14 abril 2010

A filha da Rainha-Mãe



Faz-me falta a Rainha Mãe. E mais do que a Rainha Mãe, a filha. A filha da Rainha Mãe transmitiu-me a noção de monarquia. Fê-lo discretamente, como um sussurro, um toque que não sabemos se existiu, se é uma sensação ou apenas uma recordação, uma meta sensorialidade. Nada que se compare à ideia republicana. Ou à ideia de Comuna. Ou à ideia da Cidade sem Estado. Esta ideia monárquica veio sem doutrinação, sem tentativa de conversão, sem proselitismo. Uma ideia simples como uma carteira no braço, o ladrar de um cão no pátio, o martelar do carpinteiro que repara uma escada e é ouvido pelo miúdo que dorme a sesta da tarde, na idade em que a sesta começa a ser supérflua e ele acorda com a sensação de que um pedaço da vida, dos campos, da bola nos terraços, lhe foi tirada. Uma ideia simples mas impossível de explicar, como as conversas das mulheres que visitam a mãe, de tarde, enquanto os homens trabalham. Uma ideia simples como a escolha dos legumes para a sopa, o tempo de cozedura do arroz, o ponto das natas batidas, o cheiro do gengibre e a consistência dos cogumelos a que chamam um nome que soa como as serosas dos pulmões. Uma coisa simples como falar na cama, cozer o pão, brunir a roupa das crianças. Tenho saudades da filha da Rainha Mãe. Que deixou envelhecer o filho, não se deita com o duque desde a inauguração da Jubilee Line e ignorou o clamor do povo intoxicado pelos tablóides e pelo socialista dos tablóides. Uma ideia de monarquia sem corte nem servos. Só superfície, só colar e folhos. E agora só uma ausência, como se nos estivéssemos a esquecer de nós mesmos e fosse tudo o clamor das turbas ou uma notícia esquecida nas revistas que não lemos.

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09 março 2010

As gatas-das-botas


The Sartorialist


Bem-aventuradas as miúdas quase anorécticas que ao longo destes três meses de frio e chuva criaram o meme do Gato-das-Botas. Pernas magras com leggins ou meias escuras; saia muito curta, a rasar, com alguma roda discreta e botas de cano alto; preparadas para a cheia, triunfantes, cada passo delas eram sete léguas na direcção da primavera - infelizmente para longe de mim.

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02 julho 2008

O barulho de noite

Acorda. É de noite. O pino da noite, a noite a prumo, a hora em que caçam as corujas, os homens velhos se levantam para mijar e escrever poemas, Elisabeth Costello adormece, sem afecto, sobre a mesa de Rayment. Ouve um barulho na noite da cidade. De vez em quando passa um carro e, embora seja Verão, é como se arrastasse a água das sarjetas. Mas há outro barulho. Que se torna distinto depois do carro passar. Um barulho mecânico, pulsado. Muito próximo, pode ser o sangue latejando nas têmporas. A harpa insuportável. A revolta doméstica dos aparelhos de cozinha, como nos contos infantis. Pode ser longe. Um ruído de soma. O sono das mulheres e dos homens nas suas camas. Um milhão de vezes a corrente de ar na árvore dos peitos, dezasseis a sessenta vezes por minuto. Adormece.

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19 fevereiro 2008

2008


Fiona Banner, Nude beam

A vida começou a piorar
em mil novecentos e noventa e seis
e está quase a ficar insuportável de manhã
há demasiados carros e são todos
grandes potentes derramando
o fuel e mudando incessantemente
de fila
os lugares estão todos
preenchidos
os rapazes das cheias de mil novecentos
e sesssenta e sete
vieram contar como conheceram o povo
nesses idos estava o povo morto
desfigurado à espera de ser enterrado pelas mãos
sensíveis
dos jovens que tinham descoberto
staline e o concílio vaticano segundo e enquanto
agora se lembravam chovia
sobre os pobres de sacavém enchia-se
de lodo Sacavém
agora está quase tudo a piorar e são
tão poucos os que recusam
o modo funcionário de viver
tão sozinhos em sítios que nem sei
tão longe do vosso fogo
de artifício da vossa agenda dos eventos setas
a subir
a semana correu bem está tudo
mais pesado mais agreste os parques
são todos bragaparques

ainda gostam de mim por razões obscuras
quase todos alguns de menor idade
quase todas

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