20 maio 2009

O Cingalês e o Tâmil




Uma carnificina pôs termo à guerrilha tâmil e normalizou o Sri Lanca. O exército regular do Estado, da maioria cingalesa e budista, varreu as últimas bolsas dos gloriosos tigres tâmiles. Mais uma vez será servido às crianças de todo o mundo, nos horários nobres, um corpo carbonizado, desta vez com a identidade devidamente comprovada pelo ADN. As famílias fecharão os olhos e não chegarão a ver os despojos de Velupillai Prabhakaran , como não viram as moscas na face de Savimbi, o corpo cheio de pulgas de Saddam, o líder curdo Ocalan atraído a uma armadilha , legalmente drogado e torturado, o corpo desmembrado de Najibullah exibido à chegada dos taliban a Cabul.
A Rússia e a China cumpriram o seu papel, neutralizando nos fóruns internacionais as débeis forças que porventura acalentassem a presunção de regular pacificamente o conflito. Mesmo em tempos de Obama quase nada resta daquilo a que Pacheco Pereira chamou uma vez, com desdém, o olimpianismo e era afinal o espírito da Sociedades das Nações, de concertação pelo diálogo, saído da Segunda Guerra Mundial. O Ceilão de amanhã terá a minoria étnica tamil acantonada em campos de detenção, seja qual for o nome com que estes sejam designados. Depois da Europa, do Médio Oriente, da África, a separação étnica prossegue o seu trabalho. Desta vez à mão do budismo, a mais pacífica das fés, nem sequer monoteísta. Estamos sempre a aprender. Ou a poder aprender. De facto fechamos os olhos, piedosamente. Os nossos governos hão-de pedir um rigoroso inquérito.



Luís Januário
opinião pedida pelo jornal i e não publicada

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10 fevereiro 2008

Babelia

Costumbres perdidas, otra vez valiosas: que se enciendan las luces y uno se quede aturdido, como recién despertado, mirando con sorpresa las caras pálidas a su alrededor; salir a la calle y recibir el aire frío en la cara con la sensación de estar cruzando la frontera en la que termina el influjo magnético de la ficción; estar de vuelta en el mundo real y sin embargo seguir habitando las vidas de esas dos mujeres, en una ciudad casi a oscuras, una noche de hace más de veinte años. Casi no recordábamos que ir al cine nos gustaba tanto.

Hábitos perdidos, de novo valiosos: as luzes acendem-se e ficamos aturdidos, como se tivéssemos acabado de despertar, olhando com surpresa a palidez das faces em redor; saímos para a rua e recebemos o ar frio na cara com a sensação de cruzar a fronteira em que termina o influxo magnético da ficção; voltar ao mundo real e contudo continuar a habitar as vidas dessas duas mulheres, numa cidade quase às escuras, numa noite de há vinte anos atrás. Já quase não nos lembrávamos de que gostávamos tanto de ir ao cinema.

Antonio Muñoz Molina en Babelia, sobre o filme romeno Quatro meses...

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08 julho 2007

Al Gore III


A fotografia do filho de Al Gore preso, atrás do xerife de Orange County, rodeado de fotógrafos. O crime: guiava a 160 kms/h e "estava na posse de marijuana e uns Xanaxs". Não basta que os fascistas americanos revistem os carros de um cidadão e considerem crime uns fumos e uns comprimidos, que o levem para o calaboço e chamem os jornalistas, que estes acorram e considerem notícia esta violência. Alguém no Público não resistiu ao boneco. O P2 Pessoas devia ter autor, para nós percebermos quem vai tão longe na tabloidização de um dos poucos jornais de referência portugueses.

PS 1. Outro exemplo de boçalidade são as fotografias pornográficas que hoje acompanham a reportagem de fundo da Pública sobre Rio de Onor. Na ânsia de mostrar o primitivismo dos deserdados o fotógrafo revela o seu olhar de citadinocêntrico. O que fica é uma galinha depenada.
PS 2. Na semana em que Alberto Martins mais uma vez não se pronunciou sobre os casos concretos de autoritarismo do governo de Sócrates e Campos, o líder da bancada governamental ainda teve , no Público, um brochista para lhe dar uma seta para cima. Parece que Alberto Martins vai "tomar medidas que prometem tornar a Assembleia mais verde". Tenham dó.

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04 março 2007

O ipsilon nao tem o Mil Folhas



A minha Mãe acha que o Mil Folhas acabou.
- O Mil Folhas acabou- diz ela.
- Está no ipsilone- tentamos convencê-la.
- Não, não está no ipsilõ. Acabou. Ficámos sem nenhum suplemento literário.
O jornal da minha Mãe é o Diario de Lisboa. Ela considera o Público, por alguma razão, o sucessor do Diario de Lisboa. Não é bem a mesma coisa. Os tempos mudaram. Os filhos também são diferentes dos que ela tinha no tempo do Diario de Lisboa. Mas são os filhos possíveis, na época em que o mais parecido com o Diario de Lisboa é um jornal que se chama Público, onde escrevem jornalistas de que ainda sabe o nome. Agora as coisas complicaram-se. Não se habitua a pedir o P ao jornaleiro. A verificar se o P2 vem inteiro no P. Se à sexta-feira o P tem o ípsilõ.
- O ípsilõ não tem o Mil Folhas. Se duvidam é porque não lêem- a minha Mãe, habituada a defender opiniões ligeiramente diferentes das nossas. E folheia à nossa frente, os Arcade Fire, o que é que isto me interessa, um casalinho que diz que a música deles é como a Bíblia, o Old Jerusalem, o groove, o Elvis no deserto. Até chegar à página 20, a primeira em que se fala de livros. E nem aí se alegra.
- Se o homem "tinha que fazer uma arte poética sexual" porque é que se deixa fotografar assim?


( As pgs 20 a 22 do ípsilon têm uma entrevista com Manuel da Silva Ramos. Duas fotografias. O texto, todo junto, cabe no relógio do poeta.)

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