12 maio 2008

Jantar em Kastanien Allee


Numa rua de Prenzlauer Berg reuniram-se alguns amigos. O casal K., que não via desde a queda do muro, já não demonstra nenhuma empatia. Só deve mesmo restar o amor. Quem diz isto é a Lisa. A minha amiga Lisa transformou-se numa conformista, e já fala em abrir um blog. O único problema, na vida dela, é o problema da habitação. Tem um homem a mais em casa. Um inquilino. O pai dos filhos. Já Minette, estranhamente, era a mais animada. As mesmas mãos de há dez anos, o mesmo colo, onde se houve rosas e milagre foi ali. Mas é difícil falar com Minette, que só fala alemão de Zurique. Eu tentei, como há dez anos, desta vez com redobrada convicção. O Jeremy, aquele gajo, explicou-me que para falar uma língua estrangeira é preciso ter 1) alguma coisa para comunicar e 2) vontade de o fazer. Depois é como nadar, ou escalar uma falésia, ou fazer rappel invertido, ou dançar o tango, ou fazer blinis, ou beijar a namorada suíça. As coisas saem. Não saíram, agora como há dez anos.

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25 abril 2007

Este foi o dia


Chagall

Acordaste-me, cedinho, para a notícia. Ainda ouço a chave na porta, a tua voz. Ainda vejo o teu casaco azul. Saímos para a rua. O dia estava parado. À espera. Na faculdade, aproveitámos para suspender as aulas. Fomos para a Praça, à procura de notícias. A rádio passava música sinfónica. Qualquer pessoa com mais de dezoito anos percebia que era música fascista. E que os fascistas estavam aflitos. Só mais tarde soubemos que o Emissor Regional cumpria ordens de um governador civil fiel ao governo. A meio da manhã o meu pai telefonou, garantindo que em Lisboa as ruas estavam cheias de gente vitoriando os militares que derrubavam o regime. O meu pai esperara tanto por esse dia que pensámos que ele exagerava, como era costume. Depois não me lembro de mais nada. Achei sempre que havia gente de mais nas ruas. Alegria em excesso. Uma esperança impossível de realizar.

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21 abril 2007

VPV

A crónica de hoje de VPV no Público é arrasadora. Um "filho da guerra fria" e "da democracia falhada", naufragando e sentindo que um mundo soçobra com ele. Um estilo final. Os rapazes e raparigas do país orgulhoso podem agitar os farrapos e contrariar esta visão pessimista. Ninguém os distinguirá dos figurantes de um anúncio de banco ou de cerveja.

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11 abril 2007

O nome dos professores


Jeff Walls, never happened


No secundário o meu professor de Matemática chamava-se Silveirinha. Vimo-nos até não haver mais muletas que lhe permitissem a ambulação, nem passeios transitáveis onde ele coubesse. A minha professora de português deu-me um livro do poeta Sebastião da Gama, na altura dos pentelhos e da mudança de voz. Chama-se Beatriz Paula e posso repetir-lhe hoje os versos que lemos juntos, nas cadeiras do liceu D.João III. O meu professor de Fisiologia foi um médico, Gouveia Monteiro. Numa aula que tinha por fundo as badaladas da Sé Nova aprendi para toda a vida a sequência da defecação, essa coisa baixa. Isto de que falo não é um problema da dra. Maria de Lurdes Rodrigues, nem do prof. Mariano Gago, muito menos do director da PJ, cujo nome de facto não recordo.

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09 abril 2007

A tia gena foi embora e não volta



Tenho no corredor, perto do meu quarto, uma foto do final da segunda guerra mundial, que aparentemente nos passou ao lado, uma foto de estúdio tirada numa pequena vila do coração do país. Foi tirada num momento de perfeição e ficou suspensa no tempo. São três irmãs de ombros sobrepostos como um leque de cartas. Olham para a câmara e não parecem excessivamente felizes mas também não desconfiam que o mundo lhes possa ser adverso. Nos sorrisos diferentes e comedidos parecem ser o que são: filhas do salazarismo, de tempos obscuros, cheios de necessidades imediatas impossíveis de satisfazer, sem os horizontes vastos e promissores que são devidos à idade que têm. De olhares diferentes cada uma delas, a do meio mais confiante porque sabe que terá à sua frente uma profissão dura mas com destino traçado, a da esquerda com olhar meigo levemente assustado, perfeita no rosto equilibrado mas ainda assim apreensiva porque desconfia que não será feliz, tem sobrancelhas clássicas e nunca deixará a doçura que já lhe trespassa o rosto como uma auréola eterna, a da direita encolhe-se, sentindo-se apoucada ao lado das irmãs que julga serem mais bonitas. É a única que não usa colar de pérolas de imitação e não cuidou como as outras do penteado, disfarçando um certo desleixo caseiro com uma fita um pouco infantil no cabelo menos ostensivo e saudável do que o das irmãs. Esta última é a mais velha e, como todas as irmãs mais velhas, mais exposta à inexperiência dos pais. Sempre se quiseram umas às outras, sempre esperaram, mais cedo ou mais tarde, vir a viver perto umas das outras, mas a vida obrigou-as a passarem longos tempos afastadas e preocupadas com o que estaria a acontecer às demais. A da direita é a tia gena e acabou de morrer. Morreu com ela uma parte de nós que ficámos a contemplar de longe a sua lenta decadência. Ninguém a pode fazer voltar, ninguém pode repor a confiança que já na altura não tinha. Algum tempo antes desta foto, tinham recebido em casa duas judias polacas, refugiadas do nazismo, esperando um visto para a américa onde todas as possibilidades as esperavam. Não havia língua intermediária entre elas e as recém-chegadas, mas naquela vila húmida de quase só uma rua, saíram, trocaram sapatos, e emprestaram os cobertores de papa que na altura pesavam sobre os ombros de todos, no frio de um inverno de senhas de racionamento (ninguém se lembra deste episódio, mas eu sei, que a minha mãe, a da esquerda, mo contou). Ouviam a bbc de londres, como diziam, em frente ao café edgard até adormecerem em pé. As notícias chegavam por um rádio com o som no máximo virado para a rua. Muito depois disto, a tia gena partiu para moçambique e enviava notícias demasiado lacónicas para as outras que desconheciam totalmente o que fosse viver em áfrica. A tia gena teve que voltar com o marido e a filha, de oito anos, depois do 25 de abril. Voltou pobre e desiludida, mas nunca a ouvimos dizer que no tempo do salazar é que era bom. Por muito que lhe dissessem o contrário, à volta, ela sabia que não era, porque tinha vivido esse tempo, o tempo da fotografia de que falo. Recomeçou, mas fechou-se cada vez mais a um mundo vertiginoso que se recusava a compreender. Reuniu-se às irmãs, viu morrer o pai a quem todas eram tão ligadas. A mãe rosa, de quem herdei o nome e a memória única que mais nenhum dos netos pôde ter, tinha morrido muito antes, de uma daquelas doenças fulminantes cujo nome não se ousava pronunciar, com o sangue contaminado por leucócitos exterminadores. O pai desapareceu depois de uma velhice conturbada e, no final, penosa de assistir para cada uma delas. Todas tiveram filhos, alguns, como eu, complicados e insatisfeitos. A primeira irmã fugiu enquanto dormia depois de nos ter assegurado na noite anterior que tudo estava bem. Era a minha mãe e deixou-nos, tão desfeitos há quinze anos como agora.




Daqui a algumas horas vamos todos ver pela última vez o que restou da tia eugénia.

(rosaarosa)

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