01 novembro 2005

O silêncio litoral sem pássaros

Continuo o meu caminho
Que é um passo mais além
E para casa; sem ruído
Sozinho fico aqui bem.

(Robert Walser)


É por angústia social que o narrador Vilamatesiano aspira ao desaparecimento. No início do livro faz uma longa viajem de Atocha para Sevilha, convidado para uma conferência que não preparou senão em imaginação. À chegada a Sevilha, um homem misterioso com quem se cruzou no comboio assume a sua identidade, e ele, que à distância surpreende esta cena insólita, aproveita para desaparecer. Desaparece em vários sítios que parecem sempre o mesmo. O Hotel Suède na rue Vaneau ( Paris), o Hotel Troisi, no bairro de Chiai ( Nápoles). Desaparece num personagem: o Doctor Pasavento. Cria ao Doctor Pasavento um passado e uma profissão. O desaparecimento tem um motivo que o início do livro anuncia: o fim da subjectividade moderna ocidental. A certa altura, a intensidade da fragmentação do sujeito é tão intensa, tão próxima da loucura, que surgem outros personagens. Uma delas é o dr. Ingravallo. O narrador, escritor barcelonês que nunca desaparece verdadeiramente, dialoga sem cessar com Pasavento e Ingravallo, volta aos mesmos lugares ou afasta-se no tempo para as ruas “artúricas” (de Arthur Rimbaud) onde decorrem as infâncias, ou para a rua Vaneau, cuja cartografia, ora misteriosa, ora ameaçadora, pressagia novos desenvolvimentos. O processo de desaparecimento é um processo de conhecimento. Porque o saber, a verdade, ou apenas uma escrita mais verdadeira estão no fim do mundo, numa Patagónia pessoal, para lá de uma fronteira, mais além, onde se vê de longe o fim do mar e finalmente se chega a um silêncio litoral sem pássaros. O desaparecimento é chegar ao fim das coisas.

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