23 julho 2003

A frase da manhã

Todas as manhãs, às seis e meia, a Penitenciária começa a animar-se. Com o tempo aprendi a conhecer os ruídos, a distingui-los. Da janela da minha cela vejo um varandim e, a esta hora, os passos de um preso, sempre o mesmo, que se debruça e diz, com sotaque beirão, uma frase que não decifro. Ser-me-á dirigida? Ou a outro dos incomunicáveis da cave? Será uma saudação, uma mensagem, uma amabilidade? Já escrevi o que me parece a transcrição fonética da frase. Repeti-a para mim mesmo e para os meus pais, atónitos, no parlatório. Hoje, como não dormia, pus-me à escuta, apostado em finalmente compreender as cinco sílabas com que todas as manhãs acordo. Às seis e meia ouço os passos apressados dele, a música estranha do balde nas grades do varandim. Uma vez mais ele pára frente à janela da minha cela, como que se dobra para a cave e diz, distintamente, as cinco sílabas que tenho gravadas no caderno e agora também na memória. Mas ainda não é este o dia em que percebo.

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