12 Janeiro 2014

Os patriotas





Diane Arbus chamou-lhes Patriots. E eles trazem na lapela  o distintivo do Thanksgiving ou do 4th july e nas mão o pavilhão das estrelas e das riscas.  Não parecem muito dotados, mas a distribuição dos dons é provavelmente semelhante entre os patriotas e os não patriotas.  Devia dizer “menos patriotas”. A ideia de patriotismo é tão forte, tão consensual, que é difícil encontrar alguém que dela se exclua.  Os marxistas antigos eram internacionalistas pois, para eles,  o colectivo que transportava a superioridade moral era a classe operária. Mas o PCP, mesmo nos tempos da iluminação soviética, sempre teve o cuidado, algumas vezes obsessivo, de reclamar as suas propostas como patrióticas.
O nacionalismo é a ideologia que declara a nação como a unidade politica “natural”.  ( Já estou a ficar farto de tantas aspas, mas isto é matéria para pinças) Historicamente floresceu com o iluminismo e o romantismo, paradoxalmente contra a anexação das guerras napoleónicas e depois nos territórios do Império austro-húngaro reconstruído.  Deu origem aos estados-nação com a bandeira , o hino, a língua nacional, o panteão, o dia da nação, as Ordens honoríficas e mais tarde a selecção nacional de futebol. No século XX, a ideologia nacionalista foi aproveitada pelas ditaduras de extermínio. Esteve na origem das guerras mais letais da história e permitiu o recrutamento dos jovens para uma morte colectiva e programada.
Na Europa actual, aparentemente sem fronteiras, o Estado-nação, com homogeneidade de história, tradições culturais, língua, não existe. Mas os demagogos e os políticos ambiciosos estão sempre a aproveitar uma vulgata simplificada da” história da nação” para unificar os interesses diferentes das populações, enquanto prosseguem, silenciosos e opacos, politicas económicas transnacionais.
O patriotismo e o nacionalismo fazem continuamente apelo a ideias irracionais e contêm subjacente uma ideia falsa : a de que existe, na entidade politica nacional apenas uma história, uma cultura, uma religião, uma língua, uma raça. E atrás dessa ideia falsa, uma ideia mortífera: a nossa é a melhor.
Danilo Pabe, um rapaz que cresceu na Jugoslávia em decomposição sangrenta e se exilou em Inglaterra, foi recebido como um respeitável foreigner e hoje, 20 anos depois, é um fucking Eastern European immigrant, o que mostra a persistência das ideias xenófobas e racistas, mesmo quando cobertas pelo banho de chocolate da “cultura da tolerância”.
Eu não sou patriota nem nacionalista nem faço distinções subtis, embora saiba que existam. Interessa-me mais insistir na multiplicidade de culturas, línguas, referencias culturais e históricas, religiões, existentes no mesmo território. Como de formas de relacionamento amoroso e de famílias, mas isso, como diria Danilo Pabe, é outra história.
Se alguma vez me virem trair esta declaração, fotografem, por favor, ponham-me na mão uma bandeira e debaixo da foto uma palavra simples, que de algum modo lembre a Diane Arbus.



La hija del Este, Clara Usón, Seix Barral  2012
(tradução portuguesa anunciada para breve)

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15 Dezembro 2013

Adèle





Quero falar deste filme tal como o vi, sem ter lido nada sobre ele. Talvez injustamente, considero a crítica cinematográfica quase toda preconceituosa, capelista e contaminada pelo estrelato: o sistema que reduz a análise de um filme a meia dúzia de linhas para os preguiçosos e umas estrelas para quem está com pressa. Desta vez, não li nada. Nem sequer as entrevistas a Julie Maroh, autora da BD que deu origem ao filme, os relatos dos acontecimentos que envolveram a rodagem e foram revelados, ruidosamente, antes da sua exibição e apoteose, nomeadamente com a atribuição do galardão máximo do Festival de Cannes. Ignorava assim que “o encontro luminoso” do filme, na passadeira de uma praça de Lille, fora filmado durante horas e repetido até à exaustão. A celebrada maratona de sexo obrigou a 700 takes. As duas actrizes estavam rodeadas por três câmaras, holofotes e pelos técnicos, que mais tarde e através dos seus sindicatos, denunciaram o não pagamento de horas extraordinárias e o incumprimento de preceitos contratuais. As próprias actrizes deram voz a algum descontentamento: o realizador, Abdellatif Kechiche, interrompia a cena sempre que “sentia não haver desejo.” Numa entrevista recente, Kechiche confirmou: não tendo outro guião para aquela cena, além da captura do desejo, ele cortava, sempre que, no seu julgamento, este decaía.
Vi assim o filme com aquela mesma inocência que Kechiche reclamou para o visionamento da sua obra.

O primeiro impacto foi o encontro com o rosto de Adèle. Notavelmente parecido com o de Marie, de Au Hasard Balthazar, o filme quase esquecido de Robert Bresson.  Marie, aliás, Anne Wiazemsky, a actriz de Bresson, teve um singular trajecto. Podemos segui-lo através da publicação das memórias, a mais recente das quais editada pela Gallimard com o título Une Année Studieuse. Wiazemsky filmou Teorema para Pasolini e La Chinoise para Jean-Luc Godard, entre outros. Neste livro mais recente conta como escreveu uma carta a Godard, então já uma figura emblemática da “nouvelle vague”, e como desse encontro resultou um casamento de doze anos. Neta de François Mauriac e bisneta de um príncipe russo, tinha 18 anos quando rodou com Bresson a peregrinação do burro Balthazar. A mesma idade que Adèle celebra no filme. Adèle Exarchopoulos, a Adèle de Kechiche.

O mesmo rosto oval, o mesmo olhar perplexo, profundo, melancólico. O mesmo lábio inferior polposo que Kechiche filma, babando-se nas fases profundas do sono. O método Bresson parece repetir-se com Kechiche, embora a repetição esgotante seja para o realizador franco-tunisino uma tentativa de captura da “naturalidade” e para Bresson a eliminação de qualquer veleidade interpretativa, um método para que os actores se esqueçam de que o são e assim acedam à condição de “modelos” (modèles).
Adèle Exarchopoulos e Anne Wiazemsky, separadas por 47 anos. A Vida de Adèle e Au Hasard Balthasard, separadas por 47 anos. Talvez se ignorem, como Kechiche ignora Bresson. Anne saiu do filme de Bresson no quase anonimato e Adèle teve honras de estrelato nas passadeiras de Cannes. E no entanto, o cinema acendeu e revelou duas histórias semelhantes.
A história de Adèle é a do início da sua vida de adulta, desde o fim da escolaridade no Liceu Pasteur à vida profissional como educadora de infância. E, ao mesmo tempo, a história do encontro com Emma, uma aluna do 4º ano de Belas Artes, detonador do seu desejo lésbico. 
A relação entre as duas é desigual. Adèle é mais nova, , come esparguete à bolonhesa e não tinge os cabelos de “azul, a cor mais quente”. Adèle cozinha, acolhe, serve os convidados, uma e outra vez, lava a louça, esforça-se e anula-se. O seu mundo, a sua vida profissional, aquilo que pensa é secundarizado, interessando apenas a um rapaz que faz de duplo em filmes americanos, ou ao colega educador, profissões da base da pirâmide de consideração pequeno-burguesa. As conversas das belas-artes são, no entanto, muito pouco elaboradas, denotando uma falta grave de assessoria: generalidades sobre Egon Schiele e Gustav Klimt e, mais tarde, sobre a obra de arte como mercadoria. Os desenhos de Emma são de um mau gosto arrepiante.

Adèle acaba por ser expulsa da casa comum, sem piedade, numa cena de crueldade doméstica onde nem sequer falta alguma violência e que, nesse momento, surge como epílogo de um percurso sacrificial.
O que fica deste filme é Adèle, “un modèle” de Kechiche, uma criação que se emancipa do criador. Vamos esquecer a
cena de sexo em que a cama é filmada como um ringue com duas atletas de WWE, e lembremo-nos dos beijos de Adèle. São uma coisa nunca vista. Envergonho-me ao vê-los, com pena e desgosto de mim mesmo. Procuro as palavras certas: sofreguidão, voracidade, avidez. As palavras geralmente usadas para  descrever este arrebatamento são tão desajustadas que soam ridículas, quando as escrevo ou digo em surdina. Já se filmou a ternura e o desespero, a inocência e a cupidez, já se filmaram beijos elípticos e explícitos, beijos dados por duplos, com ou sem latex, beijos cúmplices e falsos, apressados e roubados. Estes são beijos fora da história. Animais, hiantes, gemidos, famintos, feridos, emblemas de um ser que se vira do avesso e fica só mucosas, saliva e muco, lágrimas e suspiros. Era preciso vir uma rapariga das classes populares, que não conhecesse outro nome de pintor senão Picasso, e tivesse aprendido a gritar e a dançar nas grandes manifestações estudantis a favor do ensino público, para que se beijasse com este fervor, como se o beijo e os seres beijantes estivessem agora a ser inventados.
A melhor cena do filme é, perto do fim, a do encontro no café. Mas uma já não ama (se alguma vez foi capaz de amar). E é então que, no meio do ranho e do desejo reprimido, Adèle revela toda a sua superioridade face a Emma, conformista e resignada à insatisfação sexual, como habitualmente sucede aos predadores.

Anne Wiazemsky,  Une Année Studieuse, Gallimard, 2012
Au Hasard Balthazar, Robert Bresson, 1966
La Vie d’Adèle, Abdellatif Kechiche , 2013

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08 Dezembro 2013

Mértola, vila morena




Mértola Vila Morena

Resumo o noticiado sobre o caso: uma professora primária acusada de ter gravado edivulgado vídeos pornográficos, utilizando material escolar e tendo por cenário a sala de aula. Um jornal deu assim a notícia:
“Os pais dos alunos da escola de Penilhos, em Mértola, onde uma professora primária terá alegadamente realizados filmes pornográficos, ficaram em choque depois de terem visualizado, na passada semana, uma das gravações que circulam em sitespornográficos onde a docente exibe o corpo em plena sala de aula. No vídeo, ao qual o jornal teve acesso, a docente, de 42 anos, usa materiais pedagógicos para acariciar as partes íntimas.
Outro jornalista registou a reacção de uma mãe: A informação de que a professora estaria envolvida em filmes pornográficos, gravados no interior de uma sala de aula do agrupamento de escolas de Mértola, não foi totalmente nova para os pais. A mãe de um dos alunos da docente explicou ao i que ao longo dos três anos em que a professora leccionou na escola, por diversas vezes a criança relatou ter assistido às filmagens, que ocorriam quando os alunos estariam no intervalo das aulas. Não queria acreditar que era verdade quando o meu filho dizia que espreitava pela janela e via o peito da professora, diz agora a encarregada de educação, que prefere manter o anonimato. Repreendi o meu filho muitas vezes, acrescenta.

O conjunto destas informações é interessante. A terminologia utilizada é, só por si, relevante e constitui material de estudo multidisciplinar. De uma primeira incursão analítica, emergem seis possíveis áreas para aprofundamento futuro, eventualmente passível de financiamento externo.
1. Uma professora primária. A referência ao grau de ensino não é despida de intenção. Consultando aleatoriamente três sites da especialidade, pode constatar-se que as professoras primárias competem com as enfermeiras, os canalizadores, os personaltrainers e as madrastas jovens na lista das personagens favoritas das gravações de parcos diálogos e duvidosa densidade dramática. A professora primária, a personagem feminina que sucede à mãe na história de vida das crianças, deve constituir uma poderosa imagem erótica para os adultos infantilizados que este tipo de pornografia convoca.
2. A sequência dos acontecimentos: os vídeos circulam, os pais visionam, a professora é reconhecida, entram em choque, queixam-se ao Ministério, os jornais noticiam.Quase se pode ver o ambiente de planície desertificada em que isto sucede, como numlivro de Dino Buzzati: o calor, o vento suão, o rumor dos cafés, a primeira mulher-mãe escandalizada, que se sente investida pela responsabilidade social de denunciar.
3. A reacção da mãe: ao longo de três anos repreendeu o filho que espreitava. Não queria acreditar. De facto, é difícil acreditar. O rapazinho de 6 anos até dezembro, aluno do 1º ano, espreita a professora que acaba de chegar a Mértola. Vê-lhe o peito. Conta à mãe. É repreendido. Novo ano escolar e ele, já no  ano, reincide. Terceiro ano. Sucesso escolar. Mas o rapaz, agora com 8 anos, não aprende que espreitar é feio. Volta a espreitar. E como não cegou, fulminado pelo peito revelado da professora,volta a contar. E como a mãe não queria acreditar, nem viu para crer (ainda, passados 3 anos), volta a repreender.
4. A idade da professora. Não é uma jovem. É uma mulher de 42 anos, a mesma geração das mães de MértolaTemos espectáculo para todas as idades. Dos edipianos mal resolvidos aos velhinhos libidinosos.
5. O cenário: em plena sala de aula. Plena. Não um recanto da sala. Uma carteira.Junto à porta. Frente ao quadro. Não. Em plena sala de aula da Escola Primária do CentenárioDesde Salazar, o espaço sagrado da aprendizagem. Depois dos espaços de oração e do segundo lanço das escadas do Parlamento, não se conhece um espaço público tão sagrado. O cruxifixo, Cavaco Silva e o olhar do aluno que raspou o vidro da janela e há três anos espreita, repreendido pela mãe incrédula. Em Tristana, do último Buñuel, outro jovem, este mudo, nunca mais esquecerá.
6. Uso de materiais pedagógicosSugestão simultaneamente previsível, imaginativa e sempre sacrílega: foi profanado o pressuposto da pedagogia única.
O caso da professora de Mértola é exemplar e talvez nenhum outro, nos últimos anos, tenha sido tão sugestivo e desafiante. De facto, a mulher de Mértola gravou, num tempo não lectivo, com intimidade, um produto artístico que depois divulgou. O facto de o ter feito no espaço singular da sala de aula decorre do conteúdo propalado. A sexualidade é um mistério, como disse Elisabeth Badinter. E o objecto fílmico que esta mulher produziu só fazia provavelmente sentido no contexto em que foi realizado, naquele espaço e com a duração do recreio, a iminência da descoberta e do escândalo.
A última notícia a que tive acessoA professora do ensino básico do agrupamento de escolas de Mértola que fez filmes pornográficos na sala de aula tomou uma dose de comprimidos no dia 16 de Novembro, um sábado, alegadamente para tentar o suicídio. Deixou cartas de despedida aos familiares e conduziu alguns quilómetros até uma barragem próxima de casa.”
É um dos finais possíveis. Para quem não acredita que em Mértola haja apenas a memória dos mouros, a comissão de mães e uma estrada que leva até à barragem, resta fazer chegar estas palavras à professora: se alguma vez, numa escola como esta, o miúdo que fui a tivesse espreitado, não teria contado em casa, nem porventura os meus pais a teriam denunciado, nem o material teria deixado de ser pedagógico.


Tristana, de Luís Buñuel, 1970

01 Dezembro 2013

Lilith



Às cinco horas de uma tarde do fim de Novembro as ruas que levam ao Canal Saint-Martin enchem-se de gente que recolhe as crianças nas escolas. Hoje, a água do canal já reflecte as luzes e, numa ponte, dois rapazes fumam marijuana. Um pequeno grupo conspira à volta de uma carroça decorada com autocolantes amarelos que anunciam uma manifestação alternativa. Na padaria vende-se pão, brioches e bolos escandalosos com morangos e creme chantilly. Pelas janelas entreabertas, ao rés-do-chão, vêem-se oficinas familiares com costureiras, mulheres como eu, que brunem roupa, lojas discretas de pronto-a-vestir de contrafacção. Um casal ri alto e caminha sem destino aparente. Dois amigos, um homem e uma mulher, hesitam à porta de uma casa silenciosa. Um pai ouve o filho a contar como passou o dia, uma mulher debruçada num carrinho de rodas cantarola para um bebé sonolento. Uma rapariga entra num café, senta-se, despe o casaco, solta o cabelo, pousa os óculos. Junto ao Colégio Louise Michel, a porteira olha-me com preocupação: - Não pode entrar- dispara. Não se percebe se tem medo de mim, se de alguém que pode chegar a qualquer momento, por detrás dela. Nunca fiz tenção de entrar no átrio do Colégio Louise Michel, onde ainda ecoam as correrias das crianças cujos pais tardam. Vejo a porteira em sobressalto, a Marianne atrás dela com um decote tão generoso como o meu, a lápide recordando as crianças judaicas do bairro deportadas para os campos de morte, a leste, mais de quinhentas ali no X ème, é o que está escrito. Digo à porteira que o medo dela não tem razão de ser e que Louise Michel é um nome de mulher livre. Recomeço a caminhada, cruzo de novo o casal peripatético, ela é muito alta e jovem, ele já velho e espalhafatoso, fala e ri sonoro para uma audiência imaginária que, dos passeios, lhe dará certamente razão na disputa que arrasta com a jovem de andar desengonçado, sorrindo agora com desaprovação, como se sorri a um louco ou a uma criança que nos foge.
Numa ponte, um casal sobe os degraus de acesso à plataforma e dir-se-ia que sobem para os plátanos ou para o céu de chumbo de Paris, no Canal Saint-Martin. Perto do Hospital Saint-Louis, uma mulher para, junto à montra de um ginásio decorado com manequins estereotipados, de bicípites inchados, cabelo como o Tintin enquanto jovem, T-shirt de manga curta a rebentar nos peitorais oleosos. Vejo esta gente que amo serenamente, os homens, as mulheres e as crianças das orgulhosas cidades ocidentais, os filhos dos fuzilados da Comuna, dos deportados da Nova Caledónia, dos canaques e dos cabilas, e tenho uma alucinação benigna, a ilusão de partilhar a vida deles, de poder entrar nos quartos mal iluminados da Rue Saint-Maur, iguais àqueles onde me deito nestas tardes, putain de vie, mas onde encontrasse por fim gente de verdade, crianças a quem pudesse ajudar a arrumar os livros, um homem que pagasse mas me quisesse contar a sua vida que de certa forma resume todas as vidas. E chegada aqui, ao coração privado desta crónica, ao ponto em que a Rue Saint-Maur se afasta do Hospital e se cruza com a pequena Rue du Buisson, encontro-me no momento de máxima liberdade desta escrita e deste passeio. É o fim do dia, um cartaz numa parede descola-se e mostra, em tons de cinzentos, uma mulher acariciando o torso decepado de um velho que sorri. Le détournement. Chamo minhas a estas palavras com que escrevo, completamente fora do contexto e sem nomear as fontes, as que Louise Michel ensinava às crianças das escolas livres, livres como ela, livres como eu, ou aos camaradas anarquistas, o texto escondido no meio das frases, no espaço interior da escrita, no bairro árabe, corte de cabelo a três euros, fruta barata, música chamando à oração, botas pretas de cano alto, cadáveres de aves decompondo-se, entre a estação de metro da Gare de L’Est e Belleville, entre o anoitecer e o jantar, entre a empresa do genoma humano e o mercado de legumes, entre a Rue des Récollets e a Rue Oberkampf, entre os miúdos à saída da escola e vocês, mortos de quem já posso falar, enfim mortos, putain de vie, posso enfim nomear os que amei, putain de galère, e como me amaram e tiveram, os excessivos sentimentos que lhes dediquei, contrariando a razão e os bons conselhos dos que apesar de tudo tiveram reconhecido sucesso, e bem longe dos bairros populares ou mesmo aqui, na loja de bicicletas ultraleves ou dobráveis, pneus coloridos, alforges de marca, engenhosos cadeados de segurança, clandestina, c’est pas vraiment que j’aie toujours envie, aqui no ângulo morto das câmaras fixas e dos micro direccionais, aqui de luvas para não deixar DNA, palavras luvas onde soa a senha da revolta, bandeira negra, oh Louise, Louise, if it's true / tell it, tell it to me, vamos vingar todos os meninos levados nos comboios para leste, como se pôde escrever poesia depois deles, escrever sobre comboios, cuidado, aproxima-se o fim do texto, o sítio onde vou de novo ficar a descoberto, talvez aqui me leiam outra vez, Rue de La Fontaine du Roi, estou a ser filmada, tiro as luvas, porto-me bem, “não corras riscos, caminha devagar”, c’est la façon a moi de faire la guerre, na direcção do metro de Belleville, em campo-peito-aberto.

Louise Michel (Rebel Lives), Nic Maclellan (org), Ocean Press, 2004.

Tom Waits, Tell it to me, 1998



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24 Novembro 2013

La jolie rousse




Ficámos, a Luísa e eu, no pequeno hotel da Rue de Chevreuse, em Montparnasse. À noite, quando chegávamos, o recepcionista, um homem enorme,  perguntava onde tínhamos jantado. Rue Bréa, respondíamos. E trocávamos palavras de circunstância, antes de subir. O nosso quarto tinha uma chave enorme com a letra A estilizada. No primeiro dia explicaram-nos que o A simbolizava Alphabet Amoureux, o nome do pequeno quarto do segundo andar que tínhamos alugado.
Uma noite, o recepcionista estava acompanhado. Um homem de barba curta e cabelo encaracolado, passeava-se na pequena sala onde eram servidos os pequenos-almoços e partilhou, discretamente, a conversa habitualmente circunstancial que mantínhamos com o recepcionista. Dessa vez não tínhamos jantado.  Trocámos a refeição por um concerto na Igreja da Madeleine. O Requiem de Verdi, pela Orquestra de Paris. Eles trocaram entre si algumas palavras que não recordo.
No outro dia de manhã, antes do pequeno almoço, parei na Livraria Tschann, no Boulevard Montparnasse, a escassos minutos do nosso hotel. Um acolhedora livraria, com toldo verde e escaparates no exterior, milhares de livros amontoados com algum critério, relevo para editoras pequenas , como a Berg, onde Charlotte Delbo publicou uma carta a Louis Jouvet, o actor e encenador francês, escrita em 1951 e que Jouvet nunca leria, pois morreu nesse ano, e acabou por ser publicada em 1975, “quando todas as recordações lhe voltavam”. Mas nessa ocasião eu não conhecia ainda Delbo e a minha atenção foi sobretudo atraída pela correspondência de Simone de Beauvoir com o seu amante americano, Nelson Algren, troca que decorreu entre os anos de 1947 e 64, e que Sylvie Le Bon de Beauvoir editou, sem as cartas de Algren que, apesar de estarem na posse da filha adoptiva da Beauvoir, não puderam ser publicadas por imposição dos herdeiros de Algren. Durante  quase vinte anos, aqueles dois trocaram cartas de amor através das quais se pode conhecer melhor a multiplicidade desconcertante do Castor. O livreiro conhecia bem o livro, procurou-me a edição de bolso que eu viria a comprar e  ajudou-me quando lhe manifestei interesse em ver  a correspondência,  igualmente volumosa, de Simone de Beauvoir com Jacques Bost.  Foi já quando pagava que me apercebi de que o livreiro era afinal o homem que vira na noite anterior no Hotel. Ele reconhecera-me. Disse que visitava muitas vezes Gino, assim se chamava o recepcionista, e que mantinham uma sólida amizade ancorada no gosto mútuo da literatura e na partilha de longos serões na recepção do Hotel da Rue de Chevreuse.
Gino é um leitor esclarecido, contou ele. Traçou o seu próprio caminho, baseado em gostos peculiares, e numa verdadeira fúria de ler e de perceber, determinação essa que os anos têm depurado e fortalecido. No início, ele quase só conhecia alguma literatura popular e Alexandre Dumas, sobretudo Georges, o livro em que surge o personagem do crioulo. Mas quando gosta, ele faz interpretações profundas e originais. Tudo começou com Lisa, uma mulher que trabalhava na nossa livraria, continuou o livreiro. Lisa era uma judia cuja família fugira para o Brasil durante a segunda guerra mundial e voltara depois da Libertação. Nessa altura, ela era ainda jovem e casara com um jornalista do Le Monde. Anos depois, este homem ajudara o livreiro e um amigo, chamado Yannick, a comprar a Livraria Tschann. Lisa trabalharia na Tschann durante muitos anos. Quando era já bastante velha, saía à noite da Livraria e passava pelo Hotel da Rue de Chevreuse, de regresso a casa. Através dos vidros via Gino a ler. Uma noite bateu no vidro, empurrou a porta e disse que estava cansada e que precisava de fazer uma escala. Quando se despediu, emprestou-lhe um livro. Mais tarde disse-lhe onde trabalhava e  que podia usar a livraria como biblioteca, pagando no final do mês e de acordo com as suas disponibilidades. Foi assim que Gino leu dezenas de autores, primeiro os favoritos de Lisa, depois outros que ia descobrindo. Um dia Lisa deixou de vir e, algum tempo depois, em lugar de Lisa veio Fernando, o livreiro.
Na última noite que passámos em Paris jantámos num pequeno restaurante chamado Le Timbre, onde nos sentámos, cotovelo com cotovelo, com a jovem ruiva canadense e o seu amigo inglês, bolseiros em Paris, no exacto momento em que se apaixonavam. No fim da refeição ela levantou-se para ir a uma pequena divisão das traseiras, o que originou uma complexa movimentação de mesas e cadeiras. Quando o rapaz se voltou a sentar, cravou os olhos nas suas longas pernas e, mal ela saiu do seu campo visual, um sorriso de beatitude afivelou-se-lhe no rosto, o sorriso estulto dos homens nas fases iniciais do enamoramento.
Quando chegámos ao Hotel contei a Gino a minha ida à Livraria Tschann e o encontro com Fernando, bem como as revelações deste sobre os seus hábitos literários. E, como ele sorrisse, interroguei-o sobre os livros que estaria a ler entretanto. Gino sacou de uma mochila e começou a mostrar os livros que escolhera para aquela noite. E entre eles estava a colectânea de poesia francesa onde, entusiasmado, escolheu o poema de Guillaume Apollinaire intitulado La jolie rousse .
- Leia, por favor- pediu ele. E perante a minha reserva, começou:

Eis-me diante de todos um homem cheio de senso
Conhecendo da vida e da morte o que um vivo pode conhecer

Agora ouço-me a ler. Leio devagar, apesar de tudo com poucas hesitações.


Sede indulgentes quando nos comparardes

-Pare – ouço-o sussurrar. Pare um pouco. E Gino cumprimenta um casal que entretanto se aproximara e a quem entrega uma chave enorme, por sinal com o símbolo P. P de Paraíso, é o que penso.

Com aqueles que foram a perfeição da ordem
Nós que em toda a parte buscamos a aventura

E acabamos como dois jograis, enquanto a Luísa assiste divertida.

Eis que retorna o verão a estação violenta
E a minha juventude morreu como a primavera
Ó sol chegou o tempo da Razão ardente.


Spectres, Mes compagnons, Charlotte Delbo, Berg International, 2013
Georges, Alexandre Dumas, folio
La Jolie Rousse, Guillaume Apollinaire


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17 Novembro 2013

Wohin in Paris





O eixo franco-alemão, que dizem ser o coração da Europa tal como a conhecemos, teve momentos de efusiva proximidade. Um deles ocorreu em 11 de Junho de 1940. Após 40 dias de combates, deixando para trás 92 000 mortos e 200 000 feridos, as tropas alemãs desfilaram em Paris. A 23 de Junho, Hitler visitou Paris na companhia de Arno Breker e Albert Speer. Speer, o “nazi bom” de Nuremberga, hoje visto com indulgência, era o arquitecto do Reich, mais tarde ministro do Armamento e talvez a segunda figura do regime. Arno Breker era artista e escultor. Estudara em Paris onde conhecera Cocteau, Picasso e Renoir. Uma das suas mais emblemáticas esculturas encontrava-se à entrada da Chancelaria do Reich e representava dois daqueles rapazotes neoclássicos com muito ginásio e crânio pequeno, figurando o Partido Nazi e a Wehrmacht. Uma das fotos divulgadas na época, junto ao Trocadero, tem Hitler rigorosamente ao centro, Speer à sua direita e Arno Breker do outro lado, com a Torre Eiffel e o Campo de Marte ao fundo. Todos convenientemente uniformizados. Só ao Fuhrer é permitido mostrar as mãos e ele cruza-as à altura do ventre, uma delas empunhando uma luva branca. Tem a face dura que Erwin Blumenfeld popularizou, justapondo um crânio que brilha nos malares ao inconcebível bigode que vai de uma à outra narina. Speer está em posse de Estado-em-si, extasiado, olhando o infinito, lá para os lados de Port Debilly.  Breker é mais baixo e menos pomposo. Bivaque na cabeça, tem nos olhos a candura, a fascinação e o empenho dos compagnons de route.  É interessante que Hitler tenha escolhido estas pessoas para a foto simbólica e não os generais que entraram à frente da Wehrmacht ou ministros do Reich mais ligados à guerra, que acompanhavam a visita. A ocupação da cidade-luz, meticulosamente planeada com antecedência, foi sempre uma questão de prestígio cultural e intelectual. A visita, se acreditarmos na narração de Speer, durou pouco mais de três horas. Hitler adorou a Opera, o Panteão e o túmulo de Napoleão nos Invalides. Mostrou a maior indiferença pela Place des Vosges e pelo edifício do Louvre. Terá confidenciado a Speer que estava a realizar o sonho da sua vida.
Em Julho saía o primeiro número de Der Deutsche Wegleiter fur Paris, um Guia entre Pariscope e Time Out, com o subtítulo de Wohin in Paris, da responsabilidade do Kommandantur e inteiramente destinado aos soldados ocupantes. Quinzenal, teve tiragens de milhares de exemplares.
A leitura deste Guia, agora tornada possível através de uma edição da editora Alma, é esclarecedora: durante 4 anos de ocupação alemã, a vida quotidiana da capital francesa prosseguiu, em muitos aspectos com uma aparente normalidade. Cinemas e teatros. Muito teatro, um fenómeno difícil de explicar. Acreditamos que, nos bastidores de algumas salas, se desenrolasse o drama que Truffaut encenou no Último Metro.  Ou que o povo francês procurasse nos palcos a dignidade amputada.
Mas na maior parte das vezes era apenas a miséria do meio artístico a sobreviver com os seus novos clientes. Alguns pormenores são chocantes, como o à-vontade com que Sacha Guitry, um actor e encenador então muito popular, concede entrevistas à revista do ocupante, ou o êxito da Orquestra Filarmónica de Berlim, e do seu jovem maestro Herbert von Karajan, de quem o cronista afirma : “a imprensa francesa manifestou uma grande admiração por este jovem, sobretudo pela sua interpretação de Wagner, e prevê-lhe uma grande carreira” ( em 1969 Karajan seria chamado para dirigir a Orquestra de Paris...).
A revista engrossou e das 16 páginas iniciais viria a ter mais de 100, sobretudo à custa dos anúncios. Tudo se pode vender, afinal. Os comerciantes franceses querem promover os seus produtos. Cabarets, muitos cabarets, íntimos, caros, populares, “com charme, dança e fantasia”, “de 18h jusqu’à la fin”, com  “25 artistas, 7 quadros, 10 décors, 100 trajes e as suas 15 Ingénuas... nuas”. Fechados em Berlim, os cabarets floresciam em Paris, nesta repartição de tarefas da nova Europa. Os patrões do espectáculo pagavam para se anunciarem, como o governo francês colaboracionista pagava as despesas da Ocupação. Estas despesas eram de 400 milhões de francos por dia, a que se somavam as verbas de compensação, regulando as transacções comerciais entre industriais alemães e vendedores franceses. Os fundos eram avançados pelo Banco de França ao vendedor, enquanto o comprador alemão transferia o dinheiro para a Caixa de compensação alemã. Este dinheiro, uma espécie de crédito bancário da França, era depois livremente movimentado pelo Estado alemão.
Na segunda quinzena de Agosto de 1944, dois meses depois do desembarque aliado na Normandia, e já com a sublevação da capital em marcha, um tal K.Th. escreve na última edição do Guia, um texto melancólico e celeste sobre a retirada temporária, “por uma administração prudente”, dos cavalos de Marly da entrada dos Champs-Élysées junto à Place de Concorde: ”assistiram à Revolução, viram o jovem Napoleão desfilando em plena glória, depois o regresso silencioso dos vencidos. A vida elegante do segundo Império desenrolou-se aos seus pés, e as tropas vitoriosas de Bismarck desfilaram à sua frente. Viram partir os táxis franceses na Primeira Guerra mundial e, de novo, um quarto de século mais tarde, os soldados alemães vitoriosos pararam à sua frente para admirar a nobreza das suas formas, a impetuosidade controlada dos seus movimentos”.

Wohin in Paris? Où Sortir à Paris? 1940-1944, Le Guide du Soldat Allemand, Corinna von List e Laurent Lemire, Alma Editeur, 2013.
O III Reich Por Dentro : Memórias, Albert Speer, Livros do Brasil, 1969
Le Dernier Metro, filme, François Truffaut, 1980



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11 Novembro 2013

Um vazio em redor


Fotografia: Luís Januário


Em 1933, ano da chegada de Hitler ao poder, um homem que seria considerado como um dos maiores filósofos do século XX é eleito reitor da Universidade de Friburgo e, na cerimónia de tomada de posse, profere uma importante conferência sobre o papel da Universidade:
“Querer a essência da Universidade alemã é querer a ciência, no sentido de querer a missão histórica do povo alemão enquanto povo que se sabe ele-mesmo no seu Estado. Ciência e destino alemães devem, nesta vontade da essência, alcançar ao mesmo tempo o poder.” Sacrifico a estética e traduzo literalmente, sem coragem para tocar num hífen que seja, consciente de que tudo nesta formulação de um texto programático faz sentido. Querer, missão, essência, vontade da essência, povo ele-mesmo, no seu, alcançar o poder. É um enunciado que remete para as lições académicas com que Martin Heidegger, o professor de Filosofia, encantara as suas audiências. O filósofo alemão, nesse ano apenas um entre muitos, mas em breve, nas suas fulminantes palavras, um dos dois ou três filósofos de que a Alemanha realmente precisaria, mistura os conceitos de O Ser e o Tempo – que, num outro contexto, viriam a estar na génese do Existencialismo – com o programa nacional-socialista.
Imediatamente a seguir, de forma vertiginosa, o reitor de Friburgo aplicou decretos do Partido nazi e inovou, com alguns da sua lavra.  Antónia Grunenberg, directora de um centro de estudos da universidade de Oldenbourg e autora de um pequeno livro que a editora Payot publicou recentemente em edição de bolso, enumera algumas destas inovações: interdição das associações de estudantes judaicos; introdução da certidão de pureza ariana; auto da fé dos livros da cultura degenerada, como se fizera em Berlim; formação ideológica; treino militar; saneamento dos elementos hostis à segurança do Estado; introdução da saudação alemã.
Heidegger tinha como amigo e “camarada de combate” outro filósofo de referência, Karl Jaspers, caído em desgraça pelo facto de ser casado com uma judia.
Em Maio de 1933, Heidegger fez a última visita a Jaspers, aproveitando uma conferência que proferiu em Heidelberg e a que Jaspers assistiu, como o próprio escreveu, “sentado na primeira fila, as pernas estendidas, as mãos nos bolsos e sentindo indiferença por todas as suas palavras” exaltadas. Depois da conferência, Heidegger e Jaspers sentaram-se para uma conversa cheia de equívocos.  Jaspers interrogava a medo, sem sinceridade, e Heidegger não respondia. “Como é possível que um homem tão inculto como Hitler governe a Alemanha”? E Heidegger: “A educação não tem importância. Olhem para as suas mãos maravilhosas”.
Na casa onde eu cresci havia um armário dentro do qual uma estatueta de 25 cms de faiança das Caldas, da Fábrica de Bordalo Pinheiro, representava o Fuhrer de braços abertos proferindo um discurso presumivelmente tonitruante. Ao lado, tinha sido colocado um poema atribuído a Bertolt Brecht que dizia (cito de cor): “Isto que aí está/ esteve quase a dominar o mundo. /Mas os povos derrotaram-no. No entanto/ gostaria de não ouvir o vosso triunfante canto/ O ventre de onde isto saiu /ainda é fecundo.”  As maravilhosas mãos de Hitler estavam fechadas e, embora não tivesse passado tanto tempo assim, a  Segunda Guerra Mundial era já um acontecimento da História. O que eu não era capaz de perceber, na época, era a existência de um ventre muito mais fecundo. O que gerava intelectuais desejosos de se deixarem fascinar por homens bestiais, de discurso sincopado, visões simples e dicotómicas do mundo, peremptórios no seu irredutível maniqueísmo. Gente culta e exigente,  conhecedora das grandes correntes filosóficas, que pouco tempo antes debatia a questão do Ser e do Tempo, e da consciência do seu lugar no mundo, e renovava tópicos como a angústia, a liberdade, a culpa e o destino, acreditando estar a recomeçar a Filosofia. Gente desta deixa-se encantar pelas mãos maravilhosas de um tosco defensor da superioridade racial de um grupo étnico centro-europeu e da necessidade de esmagamento da “conspiração judaica internacional”.
Nesse ano de 1933 milhares de jovens intelectuais alemães que pouco tempo antes se sentavam no mesmo banco dos seus colegas judeus e, nos cafés, debatiam a revolução mundial e o problema do bem e do mal, calaram-se ou começaram a escrever ou a declamar frases ambíguas que justificavam a prisão, o afastamento, o despedimento, o exílio, ou a eliminação física daqueles que eram seus amigos, colegas e/ou interlocutores regulares até à semana anterior. Hannah Arendt, pois que é dela que esta crónica no fundo trata, dizia na altura que o problema principal não era “o que faziam os inimigos mas o que  faziam os amigos”. E concluía lembrando que se assistia a uma vaga de uniformização que não resultava do terror e deixava, em torno de pessoas como ela, um lugar vazio.
Estes filósofos desapareceram do campo da filosofia, sugados pelo ventre fecundo da traição dos espíritos intelectuais. Ajudaram os nazis a executar um projecto sinistro. Tiveram o treino militar que almejavam. Foram mobilizados. Ocuparam a Europa, que, à excepção da Inglaterra, se rendeu com surpreendente facilidade. Caminharam nas frentes geladas da Rússia. Viram passar os comboios carregados de gente para os campos de concentração, onde se amontoavam, como gado, colegas da universidade. Cheiraram a carne queimada dos crematórios. Morreram. Ou sobreviveram e, depois de alguns anos de uma depuração benevolente, ajudaram a reconstruir o Mundo que somos, num silêncio que durou 50 anos. Eles estão no meio de nós.
Deixaram uma grande lição esquecida, que as palavras de Arendt relembram a quem as quiser recordar: nos tempos de transformação rápida do mundo, os amigos desaparecem, sugados pelo brilho do vencedor e fica um grande vazio à volta dos que resistem, ou foram marcados com a estrela infamante.


Hannah Arendt et Martin Heidegger, Antónia Grunenberg, Petite Bibliothèque Payot, 2012
Hannah Arendt, filme de Margareth von Trotta, 2012



[ Crónica do Luís Januário publicada no LIV Jornal i a 9 Novembro 2013 ]





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