22 Maio 2013
17 Maio 2013
O esqueleto de Siri
No IVAM, o museu de arte contemporânea de Valência, o artista dominicano Jorge Pineda, paralelamente a uma exposição dos seus trabalhos mais recentes, utilizou uma sala adjacente para um exercício a que chamou “Lição de Anatomia: Cadáver Esquisito; homenagem a Joseph Beuys.”
No exterior deste espaço escreveu: “Como explicar a arte, a vida, a morte?”
E em seguida, lançou o desafio: “Pode partilhar as suas ideias e escrever nas paredes deste espaço o que pensa, usando as partes desta obra, ossos de um esqueleto que talvez seja o de Beuys, Gabriela Mistral, Neruda, Picasso, Wharol, Frida Khalo, Jorge Luís Borges, Juan Bosch, Gego, Saramago, Júlio Gonzalez...”
O quarto, com paredes de ardósia, era providencialmente negro. Ocupando quase todo o espaço um catre com cerca de um metro e vinte de altura, de tampo de mármore escuro sobre o qual brilhava um esqueleto. Impecavelmente alinhados, os ossos de um corpo humano. Poderia ser a poeta chilena Gabriela Mistral, sim, que ao chegar ao porto de Veracruz, no ano de 1922, espantou Palma Guillén, a mulher que a esperava, pela sua altura (1,78 m). Dificilmente poderia ser Frida Khalo, que media 1,60 m aos 18 anos, quando sofreu o terrível acidente que destruiu a sua coluna, e perdeu um membro no final da vida. O esqueleto no catre era, quando a exposição abriu, no dia 1 de fevereiro, um conjunto de 206 peças perfeitas, de cré dura, 33 vértebras, incluindo as 5 do sacro e as 4 coccígeas, 12 pares de costelas, dois ossos ilíacos, fémures, tíbias, os 7 ossos do tarso, o crânio reluzente. O primeiro visitante a perceber o desafio, pegou numa falange da mão esquerda, a que se encontrava mais próxima da parede e lhe pareceu poder ser usada como um pedaço de giz e preparou-se para escrever uma frase. A camada de ouro soltou-se na superfície articular distal da falange, e ele desenhou um risco na parede, com mais dificuldade do que imaginara. Voltou-se para o amigo que o acompanhara ao IVAM e viu que um grupo já numeroso de visitantes, todos convidados para a inauguração, o olhavam com expectativa divertida. “Entre cien mundanas no he encontrado tu cara”, quis ele escrever. Era o único verso de Mistral que recordava e também a única associação que conseguira estabelecer. Mas a inesperada rudeza do muro e a do giz obrigaram-no a escrever com uma letra irreconhecível, com tal esforço que a meio desistiu. Talvez premonitória, a primeira frase do Cadáver Esquisito foi então: “Entre cien mundanas no (Gabriela Mistral)”, e naquele momento pareceu uma razão magnífica para a arte. Depois, o homem repôs o que restava da falange no dedo que lhe pertencia, cumprindo assim a orientação do autor que prescrevera, para terminar a inscrição da entrada: “Ao acabar, devolva os ossos ao seu lugar”.
Outro homem pegou num delicado osso do metatarso e, enquanto os convidados trocavam gracejos, desenhou, na parede aos pés do catre, um emaranhado de linhas e pontos que pretendiam evocar Gertrude Goldschmidt, a artista venezuelana conhecida por Gego. E não foi difícil alguém lembrar a frase em que Borges diz: “Uma pedra que cai pensa: quero ser uma pedra que cai.”
Quando os convidados na inauguração da exposição deixaram a sala – entre eles o Curador Fernando Castro Flórez e o próprio Pineda, que divide a sua residência entre Santo Domingo e Madrid, mas se deslocou a Valência expressamente para a inauguração – as outras pessoas presentes entraram, circularam pelo curto corredor que rodeia o esqueleto, uma ou outra atreveu-se a escrever, uma palavra, uma frase, um esboço. Com o tempo adensaram-se as mensagens. O rizoma de Gego encheu uma parede e as pessoas começaram a preencher as suas malhas. No mês de Março, um grupo de foliões que não percebeu a ideia e não leu, presumivelmente, a placa de orientação da entrada, começou a gravar nomes e corações trespassados. Elena ama Javier. Darcy 2013. Rachele/ Albacete. No fim de Março, depois da visita dos alunos de Artes, a directora, seguindo as instruções de Pineda, mandou colocar um banco e um pequeno escadote. As inscrições cobriam quase todo o espaço, já não havia um osso longo completo e um homem de keffieh usou a calota craniana para escrever uma frase atribuída a Neruda.
A 23 de Abril, quando visitei o Museu, os muros pareciam brancos. Não havia uma única frase legível. As palavras sobrepunham-se, densas, e anulavam-se. O pó dos ossos, que sustentara “a púrpura de rosales de violento llamear” era agora a cal indecisa das paredes, o vozear indistinto de 18.342 visitantes, a multiplicação de tentativas de resposta ao repto de Pineda: explicar a arte, a vida, a morte. O esqueleto, um achado arqueológico. Lucy in the sky with Diamonds. Ou talvez Siri, com a sua voz esfíngica: -Siri, what’s the meaning of art? -I can’t answer that. Ah ah!
Gabriela Mistral.Antologia Poetica ,1999, EDAF
Untangling the Web: Gego's Reticularea, An Anthology of Critical Response (Museum of Fine Arts, Houston)
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12 Maio 2013
Parcimónia em Celas
Talvez haja quem se lembre: Wanda Gershwitz, aliás Jamie Lee Curtis em Um peixe chamado Wanda. Quando John Cleese, um dos Monty Python, começa a falar russo, a mulher desmorona-se como um boneco articulado. Cada frase dele, em russo, é uma poção erótica na dose adequada. Ela tenta recompor-se, mas se ele fala, em russo, ela rapidamente se quebra, requebra, descompõe. A comicidade da situação reside no poder súbito, mas absoluto que o homem adquiriu através da linguagem (russo), um recurso que o torna dominador.
Bonnie Gabriel manteve durante anos um blog intitulado Words for Lovers, recomendando verbos afrodisíacos para uso diário, paralelamente à dinamização de workshops de erotismo na linguagem comum, participação em programas de pós-graduação na Universidade de Nova Iorque e na San Francisco State University. A partir deste trabalho escreveu para a Random House o aclamado livro The Fine Art of Erotic Talk : how to Entice, Excite and Enchant your Lover with Words.
Borges adquiriu “o hábito de urdir hendecassílabos” porque percebeu que isso fazia tremer as pernas de Viviana Aguilar, a rapariga da Livraria La Ciudad, que fica na Galeria del Este da rua Maipú, em Buenos Aires.
Um destes dias encontrei em Celas a minha amiga Madalena. Madalena não é grande apreciadora do género humano e é particularmente crítica dos homens, que acha pouco sensíveis, auto centrados, complicativos e excessivamente preocupados com o sexo. Tomámos um café e, contra o que é hábito e ao que me lembre aconteceu pela primeira vez, acompanhou-me até à mota que por necessidade, eu deixara estacionada junto a um muro, num passeio público. Quando estávamos perto, destacou-se de um pequeno grupo de homens que conversava, um que , enquanto apanhava os cadernos que poisara sobre o assento da mota, disse: - Peço desculpa por ter utilizado, embora com parcimónia, o seu veículo.
O rapaz era magro e tinha boa figura. O movimento que fez foi discreto e cheio de elegância. O timbre de voz era caloroso. Eu ouvi a sua frase como se fosse dirigida a Madalena. Mais importante ainda: ouvi a frase, e sobretudo a palavra “parcimónia”, como Madalena a estava decerto a ouvir, uma certeira proferição física vinda “por onde o vulnerável cão do espírito ladra e lavra” até uma rapariga que quase desistiu de a ouvir.
Pus o capacete e executei o humilhante conjunto de manobras que, para abreviar, descreverei como “baixar o descanso central e iniciar a marcha”. A minha amiga tinha o sorriso feliz que a anima nos raros momentos em que parece acreditar na máxima de Pangloss. Aproximei-me dela e levantei a viseira, enquanto, com a moto de novo parada, soltava uma breve aceleração involuntária, que soou como um grunhido exibicionista. - Sai do meio da rua, Madalena. Queres ser atropelada? E ela, sem se mexer, ainda confusa: - Quem é o rapaz que adjectivou os apontamentos de "parcimoniosos"? Como é que se pode alegrar o coração de uma rapariga com uma palavra inesperada?
Bendita palavra, de facto. Virei-me para o pequeno grupo e baixei a cabeça, dentro do capacete, o que retirou algum impacto ao meu gesto, que se queria de apreço e cumplicidade. Parcimónia. O princípio que pode ser enunciado como a navalha de Occam e que, por isso, não carece de outras explicações mais complexas. Uma palavra para ser cantada, repetida num refrão de uma canção de Vincent Delerme. Arranquei e o meu coração ia leve como as faces ao vento e assim permaneceu até quase ao fim do dia.
As palavras. Quantos amigos perdi pelas palavras, quantos feri sem disso me aperceber. Quantos me desiludiram, por terem pronunciado a palavra errada, que surgia como “a pequena mancha” que subitamente se descobre na face do ser amado.
Ainda hoje, apesar de alguma condescendência adquirida, não resisto a algumas palavras, quase todas relacionadas, reparo agora, com satisfação, resgatando Bonnie Gabriel. A palavra “fruir”, que ainda me causa um arrepio apenas ultrapassado por “desfrutar”( dois arrepios). A incrível e pavorosa palavra “ prazerosa”. Fruir, desfrutar e prazerosa são palavras atrevidotas, impúdicas, que lembram as pessoas que comem fruta sem maneiras. Sempre percebi instintivamente o que era o pecado original e me envergonhei, solidário, com a mulher que abocanhava a maçã estendida pela serpente. Esta associação surgiu-me, desde que a ouvi pela primeira vez, como uma evidência anterior a qualquer experiência, uma sabedoria inata que dispensava outra explicação e podia ser entendida com o princípio da parcimónia, uma navalha de Occam que precede a razão, que era absoluta e só podia ser verdadeira. “Desfrutar”contém a palavra fruta, (leio maçã). E depois o prefixo “des”, aqui com um sentido de reforço ou intensificação, apesar de frutar, frutificar, tornar frutífero ou ser frutuoso não necessitar de reforço adicional.
Devíamos usar apenas as palavras justas que nos afastassem do fausto, da redundância, da mundanidade e do cosmopolitismo. As palavras indispensáveis que Sophia procurava e Carlos de Oliveira, outra vez ele, dizia que vinham com “o crepúsculo, como uma poeira lenta, encaminhando a mão que escreve” ou a voz da proferição “à silaba inicial/ da única palavra/ que é/ ao mesmo tempo/ água e pedra: sombra,/ som “.
Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, Ed. 70
Carlos de Oliveira, Entre Duas Memórias, D.Quixote
Jorge Luís Borges, La Cifra
04 Maio 2013
A circulação das frases.
Sophie Calle
A ideia de que cada acontecimento tem um propósito, uma causa final (Aristóteles), parece fundamental no modo de funcionamento da consciência humana. Estaria na origem das religiões, das técnicas, da física e da psicologia. Surgiria muito cedo no desenvolvimento infantil e evoluiria de forma automática. Outra das capacidades humanas, embora poucos gostem de falar sobre isso, é a de viver a vida pessoal, tantas vezes insatisfatória, através da construção de fantasias sobre a vida dos outros. Isso explicaria o sucesso do teatro, da novela, das revistas cor de rosa e dos reality shows ou a sobrevivência da monarquia britânica. Olhando para o nosso confuso interior, perscrutando o charco das nossas profundidades, podemos ver como, ao cruzarmos a existência de alguns desconhecidos, gostaríamos de seguir os seus passos e, no limite, viver as suas vidas. Só nesta multiplicidade realizaríamos a ambição desmedida, mil vezes desfeita e renascida, de viver “la vraie vie”, como a Elise de Claire Etcherelli, num livro esquecido do século passado.
Isto aconteceu recentemente a uma mulher de 35 anos, Maria Dolz, directora de publicações de uma editora, que todas as manhãs observava um casal com quem nunca falou e com o qual se esforçava por coincidir durante o pequeno almoço, num café próximo do seu local de trabalho.
É este o tema de “Os enamoramentos”, último livro de Javier Marías, pelo menos de acordo com a contracapa. Nas horríveis edições que agora invadem o mercado livreiro, normal, paranormal e anormal, a contracapa assegura habitualmente a genialidade do autor e da obra, para tal recorrendo a vozes consagradas que, estranhamente e mesmo quando se trata de uma primeira obra, já a leram e sobre ela generosamente verteram sound bites, que ficam mesmo a matar na contracapa das horríveis edições de agora. Segue-se um curto e incisivo resumo, muito útil para os especialistas instantâneos (como eu) que assim se encontram habilitados a poder falar dos livros que não leram. Sucede ainda que, mesmo no caso de os chegarmos a ler, aquelas frases cirúrgicas modelarão a leitura e as interjeições criticas com que poderemos, mais tarde, participar sem constrangimento em qualquer conversa literária, se ainda as há, palely loitering.
E com este meio verso de Keats entramos no romance de Marías. Entramos pelo fim, pois, tanto quanto me lembro, esta é uma das últimas ou a última citação . Escolhi quatro, para falar um pouco do livro deste adepto do Real Madrid, que, tendo a minha idade me deixa acreditar que partilhamos alguns momentos fundamentais deste tempo: o Museu Ashmolean em Oxford e os relatos curtos das vidas de escritores, Enquanto elas dormem e A vida do Fantasma, o estampido do tiro que abre Coração Tão Branco e o assassínio de Desvern nesta última criação.
A partir de Keats, que assinala a forma como uma presença obsidiante se atenua no nosso quotidiano, viajamos à primeira referência literária de “Os Enamoramentos”, um verso do poderoso monólogo de Macbeth ao receber a notícia da morte da sua mulher, antes da batalha. She should have died hereafter, diz ele. E o autor, ou a voz de Diaz-Varela, Javier como ele, um homem de boca carnuda por quem Maria Dolz “estúpida e silenciosamente” se apaixonara, discorre sobre o enigma que se encerra nesta frase, e que reproduz o que qualquer um poderia dizer no anúncio da morte de um ente próximo. “Não neste momento. Teria havido um tempo para tal palavra”. E a seguir, os célebres dez versos que Javier, o narrador, e tanta gente ainda sabe cor e que começam por “Amanhã, amanhã e amanhã”.
A segunda citação, sempre pela voz do tal Diaz-Varela, o outro Javier, é de um dos pequenos contos de Balzac que compõem A Comédia Humana. Chama-se O coronel Chabert e relata a terrível aventura de um militar do exército napoleónico dado como morto após a batalha de Eyleau, contra o exército czarista, a mais fria batalha da história. Atingido brutalmente no crânio, o coronel foi espezinhado pela passagem da cavalaria do marechal Murat, dois regimentos com 1500 homens, e em seguida atirado para uma vala comum. Mas não estava morto e regressou, para ver como a mulher se desfizera não apenas dos seus bens mas também da sua recordação. Um Frei Luís de Sousa francês, escrito em 1835, que tem de aprender por ele próprio que “os mortos erram ao voltar” e que é Ninguém, “o que morreu em Eylau”.
A terceira citação é de Os Três Mosqueteiros. Uma passagem que o pai de Maria Dolz costumava declamar e que se virá a revelar a chave para o comportamento e as decisões desta. “Le conte était un grand seigneur...”. Começa assim, e ao repeti-la percebemos como Maria a deve ouvir, no francês do pai aprendido no colégio São Luís dos Franceses, onde Javier talvez tenha andado. “Le comte était un grand seigneur, il avait sur ses terres droit de justice basse et haute...”
E ficamos a conhecer o terrível relato de Athos a D’Artagnan onde ele obliquamente lhe dá a conhecer a execução, às suas mãos, da jovem Anne de Breuil, então com dezasseis anos e com quem recentemente casara, apenas porque, durante uma caçada, ao desapertar-lhe a blusa após um desmaio lhe descobrira, gravada a ferro, a marca infamante do carrasco de Lille, o sinal com que eram marcadas “as prostitutas e as ladras”.
- Céus! Athos! Um assassínio!- exclama D’Artagnan.
- Sim, um assassínio, só isso. - responde Athos.
Frases de livros lembradas em outros livros, ditas pelos nossos pais, recitadas na escola, ouvidas no teatro ou a amigos, ficaram gravadas e regressam à nossa vida, para a pautarem, lhe darem sentido e com ela ganharem também uma nova ressonância, outra circulação, frases que são no início só o trauteado encantatório com que as aprendemos e depois se revelam “o som e a fúria, uma hora num palco” parecendo, por momentos, significar alguma coisa.
Os enamoramentos, Javier Marias, trad. Pedro Tamen, Alfaguara
O coronel Chabert, Balzac, Assírio e Alvim Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas, Europa-América
Macbeth, William Shakespeare, Relógio D’Àgua
La belle dame sans merci, John Keats (publicado no jornal i a 5 de Maio de 2013)
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27 Abril 2013
Maio ao contrário
No último fim de semana Paris assistiu a uma grande manifestação contra o " casamento para todos", assim se chamava a iniciativa da ministra da Justiça do governo de François Hollande. Como sempre os números são díspares, de acordo com as fontes. Mas a manifestação foi um êxito. O que estava em causa era a aprovação pela Assembleia Nacional francesa de um diploma estendendo o casamento aos indivíduos do mesmo sexo, com a possibilidade de adopção. A direita, e não apenas a mais radical, a que para facilitar chamaremos popular, esteve muito activa no parlamento, obrigando a uma maratona que se estendeu por 160 horas e várias madrugadas e que ameaçou a confrontação física. Um conjunto de organizações muito variado convocou a manifestação. O jornal Le Monde investigou e chegou à conclusão de que a maior parte dessas organizações são fantasmáticas, "des coquilles vides", como dizem. Por detrás delas está a Igreja e a direita política francesa, em recomposição desde a derrota eleitoral de Sarkozy, tendo na ribalta aqueles personagens medíocres das transições, cujos nomes me dispenso de decorar, mas que parecem sempre excessivamente entusiasmados com o tempo de antena que conquistaram. E uma mulher, que dá pelo nome de Frigide Barjot. Também conhecida por Virginie Tellenne, era, até há pouco, uma artista um pouco excêntrica das relações da família Le Pen e do sub mundo de Paris. Tentando contextualizar a ironia onomástica, diria, com todo o respeito, que seria o mesmo se, entre nós, uma campeã do combate contra os direitos sexuais adoptasse o nome de Anália Pudricas. Em 2004, depois de uma peregrinação a Lurdes, Frigide tornou-se uma activista católica. Para usar as suas palavras, uma "adida de imprensa de Jesus". Saltou para as primeiras páginas com o êxito da mobilização que referi e já declarou que tenciona federar os descontentes dos partidos tradicionais no seu movimento e concorrer às municipais de 2014. Um dos aspectos inovadores da manifestação, para além do folclore homofóbico, foi o aparecimento dos Hommen, grupo inspirado nas Femen e que se manifestaram de tronco nu, decorado com palavras de ordem. Outro, foi a táctica de confrontação com a polícia e de provocação de tumultos que os parlamentares depois se encarregam de dramatizar, criando na assembleia uma tensão especial, ampliada pelo estilo grotescamente tribunício que a presença de claques na asssistência propicia. Eufóricos com a dimensão da revolta e com a participação de jovens, alguns já anunciam uma vaga de fundo, "um Maio 68 ao contrário". Contra o" progressismo e a modernidade", dizem.
Não se percebe bem o que possa ser "um Maio de 68 ao contrário". Sob alguns pontos de vista já aconteceu. O cinema, por exemplo, é quase todo, há muito tempo, o cinema do papá. Ou dito de outra forma: com a infantilização geral dos papás, não é preciso outro cinema. Mas o que diriam se os jovens catecúmanos de Paris investissem contra a polícia nos próximos meses, os rapazes de gravata e as raparigas de Marianne, gritando: " Somos nós os cães polícias do capitalismo. Olhem como gostamos do polícia que há dentro de cada um de nós." E com palavras de ordem e grafittis deste tipo: " Sejam realistas, peçam o possível! Deus, tenho a certeza de que és um activista da direita popular. Eu não faço amor. Procrio. É mesmo proibido. Tudo proibido. Metro!boulot!dodo! A arte está viva . No Palácio da Ajuda. Se debaixo do empedrado estiver a praia, privatizêmo-la."
O maior mistério é mesmo o que leva a Igreja católica a meter-se com esta gente. A Igreja não resolve os seus problemas sexuais e não resiste aos seus reflexos condicionados. A preocupação com a família é uma coisa boa e decente. Adoro as famílias, a minha em particular e as famílias em geral, sobretudo quando são felizes sem alarde, nem necessidade de andarem a exibir a sua felicidade. Mas porque razão a minha família há-de ser um modelo para as outras? Porque não hão-de os homossexuais poder constituir famílias felizes ? E adoptar crianças ? Que diminuição atinge os homossexuais? Que qualidades especiais têm os heterossexuais, para ter mais direitos? Uma maioria não outorga nem consente direitos. Reconhece a desigualdade e põe fim a um regime iníquo. A Igreja católica, se quer ter um papel positivo no mundo actual e distinguir-se do Islão, faria bem em escolher as companhias. Frigide Barjot não é uma boa companhia. Jesus, como se sabe, há muito que escolheu os seus assessores de imprensa. E não foi ela, nem foi em Lurdes.
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21 Abril 2013
Homenagem a Glenda Jackson, MP
Martin Parr
A
senhora Thatcher foi a sepultar. Foi um dia grande para o Império Britânico. No
Parlamento de Londres, uma mulher corajosa, Glenda Jackson, tinha lembrado as
multidões de deserdados do thatcherismo. Glenda, uma glória britânica,
opositora da revolução conservadora, do blairismo e da guerra do Iraque, estava
bem colocada para fazer esta intervenção e quebrar o falso unanimismo que a
direita revisionista procurava, com a claudicação da razão que uma morte sempre
provoca. Um membro da maioria mandou-a calar. Tratava-se de uma Homenagem à
falecida. Só falava quem queria. Homenagem é, etimologicamente, um protesto de
admiração e respeito do vassalo ao senhor feudal. Em inglês, Tribute tem o mesmo significado. To pay tribute, dizem. Acabado o
feudalismo, só paga quem quer. A
homenagem passa a ser um acto de consideração. Quem não tem consideração
especial pela senhora Thatcher, deve alhear-se da homenagem. Além do mais não
parece elegante dizer mal de quem acabou de morrer. É um momento em que deve
calar-se quem, como eu, não tem nada de especialmente agradável para dizer
sobre a mulher que governou o Reino Unido durante onze anos, deu aos patrões a
flexibilização das leis laborais, aos mercados a desregulamentação do sector
financeiro e a privatização dos sectores rentáveis do Estado e foi uma das
principais responsáveis pelo mundo com que nos debatemos presentemente. Seria
este o meu contributo, se eles tivessem parado de falar. Apenas com uma breve nota, como dizem os
comentadores. Sempre achei Glenda Jackson melhor do que Merril Streep. A rainha Isabel I, Elena Bonner, Alexandra Kollontai, a amante
de Lord Nelson são bem superiores à amante do Tenente Francês, ao diabo que
veste Prada ou à xaropada romântica de A ponte de Madison County. Calo-me, pois.
Não
foi outra a opinião do Bispo de Londres, Richard Chartres, que disse que o funeral não era
o local para discutir as suas políticas. A senhora Thatcher fez o que Passos
Coelho está a fazer neste país. Tomou o aparelho de Estado para destruir a
maior parte das suas funções sociais. Era o seu ideário e cumpriu-o, vinte anos
antes dos correligionários portugueses, com o apoio maioritário dos votos depositados
nas urnas. Com Reagan, e depois com Bush e Blair, inaugurou a nova faceta da
direita política que abandonou a moderação social do conservadorismo clássico
inglês e desencadeou uma via de destruição. Será recordada pela famosa frase “não existe essa coisa de sociedade. Há
indivíduos e famílias.” Foi agora a enterrar com um
funeral que custou 12 milhões de euros aos contribuintes, o que, como alguém
registou, não é inteiramente correcto para uma liberal extremista. A baronesa Thatcher
de Kestevet, fiel aos seus princípios, não se precaveu contra a tentação do
governo encenar um espectacular funeral de Estado, ao invés de um discreto
funeral privado, a cargo da Servibritain e suportado por uma cláusula do seu
seguro de vida pessoal.
O
funeral revestiu-se de uma pompa sem igual. Sob o ponto de vista formal, foi um
“funeral cerimonial”, uma categoria criada para Diana após a sua morte, e que
depois se aplicou às exéquias da Rainha Mãe. Na prática imitou o funeral de
Churchill. Como foi notado, Churchill
foi um combatente que uniu o Reino Unido quando este era, ainda, a sede de um
império. Thatcher foi uma determinada activista radical que unificou a direita
numa batalha política contra o trabalhismo, os sindicatos, a classe operária e o Estado providência e dos consensos,
laboriosamente edificado no pós guerra. Pregando um “capitalismo popular”, em
que todos poderiam ser proprietários de uma mercearia, abriu o caminho à
ditadura mundial do capital financeiro especulador, ao clepto-capitalismo nos
países pós-comunistas e à intervenção militar sem fim. Nos direitos civis e nas
artes, oscilou entre a ignorância e a grosseria. Amiga de Pinochet, tolerante
com o apartheid, matou a ilusão de que a chegada das mulheres aos mais altos
cargos de decisão política modificaria o seu exercício.
Compreende-se
que a direita de Cameron e os seus simpatizantes do continente lhe queiram
prestar esta homenagem e nisso se excedam, e que a monarquia de Isabel II,
especializada em funerais, se ponha a jeito. Mas neste ano do século XXI, a
vitalidade do legado de Margareth Thatcher reside na cega agressividade dos
mercados destruindo as nossas vidas. O fausto do funeral de Londres e o mundo
intelectual de Thatcher são já como o império de Vitória: um parque temático
que alguns visitam com nostalgia e que no dia seguinte se esquece com o anúncio
dos novos cortes governamentais nos serviços públicos.
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15 Abril 2013
Nem sempre se morre
Quando, mais tarde, encontra o Professor Pangloss, este comunica-lhe os terríveis acontecimentos: do encontro com Paquette contraíra o treponema da sífilis, que, apesar de nesse ano distante ainda não ter sido identificado, lhe fizera já cair os dentes e parte do nariz; o Castelo fora assaltado pelo exército Búlgaro e não ficara pedra sobre pedra. Pior, Cunegundes também perecera “esventrada pelos soldados, depois de ter sido tão violada quanto se pode sê-lo.” Algumas peripécias depois, nos arredores de Lisboa destruída pelo Grande Terramoto, uma velha conduz o nosso herói a uma casa dos arredores e a uma mulher que, quando se descobriu, não era outra senão a bela Cunegundes, pérola das raparigas. –Que é isto! sois vós, espantou-se Cândido. Estais viva! Encontro-vos em Portugal! Não fostes violada? Não vos rasgaram o ventre como me assegurou Pangloss?
E é então que Cunegundes responde: - Assim foi, mas nem sempre se morre destes dois acidentes. Quando Cândido recebe esta resposta e apesar de estarmos apenas no capítulo sete, já tinha sido pontapeado pelo Barão, seviciado repetidamente pelo exército búlgaro, traiçoeiramente agredido na cabeça pela mulher de um orador papal, soçobrado num naufrágio no tsunami de Lisboa, condenado pela Universidade de Coimbra a penitenciar-se num auto da fé onde o sermoaram e açoitaram em cadência. Por duas vezes, à força das sevícias, perdeu a pele e ficou descarnado, salvo por emolientes, cremes e pomadas. Atravessou todas estas provações com uma grande perplexidade. Discípulo do Professor Pangloss, o melhor Filósofo da província, e portanto do mundo conhecido, sempre aprendera que este era o melhor dos mundos possíveis, onde as coisas não podiam passar-se de outra forma, dirigindo-se para o melhor dos fins. Era terrível tudo o que lhe acontecia, e o sofrimento infligido àqueles que amava. Mas o rapaz aceitava que todos aqueles males particulares compunham o bem geral e conformara-se com um mundo do qual desaparecera para sempre a bela Cunegundes. Violada pelos soldados búlgaros. E depois- têm que ler outra vez- o ventre rasgado.
Somos todos filhos e filhas dessa interminável violação. Não de um acto de amor, mas de uma bárbara intrusão. Dos testículos da soldadesca como uma arma de guerra total, apontada às mulheres não combatentes. Foi assim nas tribos e nos primeiros estados. Nos gregos e nos persas, nos avanços das legiões romanas. E numa lista recente a que não vos pouparei: o Congo e Darfur, como antes o Ruanda e a Bósnia Herzegovina, Myanmar e a Somália, Bangladesh, Cambodja, Costa do Marfim, Chipre, Timor Leste, Haiti, Libéria, Peru e Uganda. A resposta da rapariga é de uma grande simplicidade. Nem sempre se morre destes dois acidentes, diz ela. E isso é novo, leve, encantador e também um sopro de esperança no Cândido e no tempo que anuncia. Cunegundes não se queixa. Não se vê como vítima ou troféu do vencedor. A violência é abjecta, mas ela não. Não tem cicatrizes, traumas, sequelas, vergonha. Continua a ser uma mulher que pode ser amada. Do mesmo modo que os emplastros curaram Cândido, assim ela renasceu. Uma sobrevivente, utilizando os seus encantos, os seus poderes. Cunegundes é o reverso do pessimismo. Se o homem mata, estropia, perfura, rasga e por todo o lado encena a destruição como espectáculo do poder, a mulher lembra aos que conservam a ingenuidade que a destruição nem sempre é total. Não sucumbem todos nos autos da fé, nos campos de extermínio e de violação, no circo romano, nos saldos do Pingo Doce, nas eleições democráticas, no Palácio da Ajuda. Alguns sobrevivem, no melhor dos mundos possíveis. E estes ouvirão de uma mulher ( e do Professor Pangloss, ele também redivivo) as palavras simples que tornam tudo possível, outra vez, para a espécie maldita.
Cândido, ou o Optimismo, Voltaire, Tinta da China, 2012
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