20 julho 2003

Teatro na cadeia

Um encenador de teatro anda agora a ensaiar com alguns presos. Ouvi dizer que o gajo não é da bófia nem da Recuperação Social. Inscrevi-me no grupo mas não fui seleccionado. Ainda deve ser da ressaca de ter mandado foder o psicólogo . Hoje os jornalistas vieram visitar a cadeia e à frente vinha o senhor director e o manda-chuva da Cultura. O gajo que arranja a massa para o encenador. Os actores não recebem nada mas estão agradecidos por participar numa acção daquelas. Parece que fazer teatro acelera a recuperação. Se a peça chegar ao fim deve dar para um ano de perdão de pena. Não interessa. Vinham todos, era o que eu estava a dizer. Nós estávamos fechados na cela e os presos- actores não podiam falar. Normal, que ainda falta muito prá recuperação. Mesmo assim ainda ouvi o senhor director. Que só estávamos privados da liberdade de mais nenhum dos direitos fundamentais. Estava atrás da porta da cela, a arranhar a porta sem estardalhaço para os guardas depois não virem chatear, quando a festa estiver desmanchada. Estava a exercer o meu direito fundamental de arranhar a porta, suavemente. Antes de eles começarem a falar para a máfia dos jornais que lá se juntou o nosso ruído ecoava nos corredores da prisão. Parecia que anunciava qualquer coisa de importante. Às vezes parece que pode acontecer alguma coisa aqui dentro: um raio que arrebentasse esta merda toda, um chuto colectivo e final, a notícia de alguém que se evadiu, simplesmente um cheiro de mulher. Afinal o que veio a seguir foi o silêncio e depois do silêncio mais discursos.

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