24 julho 2003

Teatro na Penitenciária

Os do Teatro andam a passar-se. Estão quase todos na ala F e são já conhecidos por ala P mas eu não entro nesses jogos homofóbicos. Têm os olhos esbugalhados mesmo sem erva, que é coisa que ninguém vê há anos, pode ser que agora com a cultura apareça alguma. Estão, como dizem, em permanente coreografia. Movimentos de vôo, crescimento de asas, fuga. Aí percebo-os e invejo-os, confesso. A psicóloga disse-me que no processo de selecção me auto excluí. O juiz que me pôs incomunicável também disse o mesmo: você é um auto excluído! Foi antes de os mandar foder. Mas gostava de fazer Teatro. A psicóloga disse que tinha andado no TEUC e que o Teatro fazia as pessoas boas. Ela acha que eu devia sentir-me culpado e que a culpa é uma coisa fundamental na recuperação. A maior parte das coisas que ela me diz são mesmo para me sentir culpado. Dizia, que desde a cenaça da semana passada não me recebe, nem marca entrevista. Mas eu já não tenho espaço na cabeça para tanta culpa. Na cabeça , no peito, no sexo. Só não sei de quê. E isso não me faz sentir melhor. Os da ala P, digo F, começaram a escolher papéis femininos. Dizem que não é nada de novo. No teatro chinês não há mulheres, parece. E os homens pintam a cara de branco e fazem de mulheres. As mulheres com a cara branca são lindas. Esse pensamento faz-me sentir bem. É como os olhos da jornalista que esteve cá na semana passada. Dizem, que eu estava atrás da porta. Mas contaram-me tão bem que posso imaginar. Quem me contou foi o guarda V. De vez em quando ele abre as portas das celas da cave onde estão os incomunicáveis e vai para o fundo do corredor espreitar se vem alguém. Ele viu os olhos tristes da jornalista e contou-me. Dizem que o guarda V. tem o complexo de Helsínquia e que gosta tanto dos presos que qualquer dia vai dentro. Mas isso são coisas de psicólogos doentes. Eu penso que o que há é uma grande corrente que liga as pessoas em certas alturas. Os da ala P com esta coisa do teatro japonês emocionam-se com a cara pintada uns dos outros. Um deles encontrou um escrito do Pasolini sobre a fraternidade homossexual das prisões. Era lindo, porra. Eles não sabem é como é que acabou o Pasolini.

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