11 outubro 2003

Re:Silvano

Não houve jogos florais na minha infãncia. Aprendi o sexo nos canaviais e tenho um problema com as mulheres. Ou elas comigo. As mulheres que conheci precisavam de demasiada atenção e eu, compreende, não me fixo. Foi talvez por isso que não dei para os estudos. As mulheres que me poderiam interessar são como as aulas de matemática. Exigem demasiado investimento sem que se perceba bem o benefício. Faço segurança numa empresa privada. Os meus amigos estão todos bem na vida. Para que se não cruzem comigo sujeito-me a ser escalado para os arredores, turnos que ninguém quer. Leio-a à  noite, às escondidas, quando faço plantão no escritório de uma empresa. Para não ser descoberto entro sempre pelo Abrupto. Não compro livros. Não percebo de poesia. Entrei no seu blog ao engano, à  procura da natureza do mal. E fui ficando. O único momento de elevação da minha vida é quando leio o que escreve. Uma vez requisitaram-me para um trabalho na morgue. Não sabia que havia tantas maneiras de se morrer e que se ficava assim. Tão solitário e exposto. Um homem não pode dar parte de fraco. Mas aquilo não era sí­tio para mim. Quando achei que não dava nas vistas pedi escusa. Agora que a conheço, desculpe-me a ousadia, vejo as coisas de outro modo. Alegra-me que possa a ver em todos os sí­tios gente como a menina. Para alguns sobre quem escreve, deve ter sido o seu o único olhar carinhoso que sobre eles caíu. Olhe que sei do que falo. Conheço-os. Como não havia de os conhecer.

recebido no mail de anaturezadomal

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