03 novembro 2003

Na janela do pequeno almoço

Insonorizada pelos vidros duplos, a zaragata em frente é sobretudo uma tumultuosa perseguição cheia de cor. Indiferentes a mim, asas azul esmalte em peitos de ferrugem estardalhaçam-se pelas ramagens mais altas do sobreiro. Indiferentes aos gaios, um bando de penugem amarela debica minucioso a folhagem. Indiferentes aos chapins reais, vultos de negro veludo saltitam rente ao chão. Indiferentes aos melros, duas alvéolas rabudas dão passinhos apressados. Indiferentes a tudo isto, medonhas cegonhas mecânicas regurgitam ameaçadoras papas de cimento. Está pronto mais um piso das novas gaiolas de luxo, já em venda com garantia de vida climatizada e isolamento total do exterior.

André Bonirre

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