17 dezembro 2003

Tenho o champanhe e a efusão guardados. Não me chamem de esquerda.

Se a esquerda não comemorar efusivamente um facto destes, não é digna de se chamar esquerda."José Mário Silva
Um dia, estava em Bucareste, numas férias de turista pobre. Era uma avenida de imponência pirosa que levava ao Palácio Presidencial e nessa avenida havia um livraria, coisa rara naquela paisagem. Pedi um exemplar, em romeno, da Alice no País das Maravilhas. A funcionária disse que não, que não havia. Perguntei-lhe se não tinha vergonha de só ter livros do Ceausesco, da mulher do Ceausesco, dos filhos do Ceausesco. E repeti-lhe uma vez, duas, a pergunta. Ela ligou o telefone e passámos a ter a companhia discreta de uns senhores de gabardina. Dois anos depois Ceausesco caíu e senti-me feliz. Mas quando, numa estrada não identificada, lhe deram um tiro na nuca, senti-me mal, qualquer coisa indefinida que não me faz ter orgulho da minha humanidade, seja lá isso o que for. Eu não acredito nas massas populares a festejar a libertação. Procuro sempre, na turba em festa, a livreira de Bucareste em genuí­no espalhamento de alegria.
Saddam caí­u quando, à  revelia da lei internacional, essa coisa frágil que a segunda guerra mundial foi construindo, as poderosas tropas americanas invadiram o Iraque. Não caíu pela luta corajosa do seu povo oprimido, nem pelo sacrifí­cio isolado de uma vítima que dele se tivesse acercado para fazer justiça. O que no domingo mostraram impúdicamente foi um velho num buraco a tentar respirar por um tubo e a sobreviver a comensais tão velhos como a nossa espécie: piolhos. Alegrar-me porque vai ser julgado por um tribunal levantado por Bush? Zé Mário, eu escrevi como resposta à  vossa primeira reacção: não verto, nesse brinde, o meu champanhe. E agora digo-te: não comemoro. Nenhuma efusão, nem ardor, nem veemência, nem fervor. Não sou digno que me chamem de esquerda. Não me chamem de esquerda, por favor.

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