24 fevereiro 2004

Saí de casa a correr e perdi o título

Saio de casa todos os dia, pois é saio, tu não? Levo sempre a máscara certa conforme a luz, agora da cor certa, se te vou encontrar hoje, e esbatida ou metalizada se lembro o dia de ontem. Todos me reconhecem a máscara e eu também. Somos peritos no conhecimento de reconhecimento de máscaras. Dançamos no baile com estranhos como quem vê máscaras. Antes de chegar a casa tiro-a sempre, tento disfarçar o hálito a baile, escovo os sapatos da dança, escondo os calos doridos onde me pisaram, limpo o gel do cabelo. Hoje dancei com ele, é fácil esconder a aura, sei que era ele porque lhe conheço bem a máscara. Às vezes um bocado do latex fica colado à pele, nos pontos mais difíceis, não consigo já retirá-los nem para dormir e olha que uso um bom desmaquilhante. A imagem do espelho está cada dia mais sobreposta, as pessoas que eu tinha herméticamente isolado em caixas estão todas misturadas. Raiospelira descobri que eles se conhecem, estou em pânico, não sei mais que máscara intermédia de meio-número devo vestir. A borracha está tão colada, a pele untada de desmaquilhante, sobreposta de camadas, os calos nos pés pisados, o sapato no pó, o baile no hálito e o espelho que não responde a nada. Não sei qual é a máscara da minha pele, hei, mas então posso sair com a pele que é máscara, disfarçado, se eu não sei, tu também não?

K

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