Notícias da lagarta

Ela telefonou-me. Protestei inocência. Não conheço os dias dela, a infância, a família. Faço uma ideia vaga da prosperidade do seu negócio. Vimo-nos sempre a propósito de transacções, que, para ela, creio terem sido insignificantes. E, desculpe-me a dureza com que lhe vou confessar isto: Não me lembro da cor dos seus olhos. E nem disso me sinto culpado. Simplesmente porque não os levantou nunca frontalmente para mim, mais preocupada com as tabelas que tinha à sua frente do que comigo ou a empresa que eu represento. Como pode ter a certeza que é comigo que cruzou a lagarta? E entusiasmado com a perspectiva que se abria, continuei. Sim, tem a certeza que é a minha cara que vê com a sua lagarta?
Fez-se um longo silêncio do outro lado da linha. E depois ouvi a voz dela, como se tivesse revistado a memória e tivesse saído de lá magoada: é a única cara que recordo nos últimos seis meses.
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