07 setembro 2004

Actualidade de Samuel

No Colégio sequestrado na Ossétia, quando uma das mães começou a chorar, um dos terroristas disse-lhe: É a tua vez de chorar, que as nossas mães não param de o fazer. Isto, e mais do que isto, ouviu uma testemunha. Não foi dito em árabe. Foi em russo, com forte dialecto do Cáucaso. Quem o disse foi um homem com idade para ser um homem novo, como Putin. Talvez isto que conto horrorize alguns. Está escrito no livro de Samuel:
Depois Samuel disse: ‘Trazei-me Agag o rei dos Amalecitas’. Agag aproximou-se a tremer e disse: ‘É a hora amarga da morte’. Samuel disse-lhe:’ Assim como a tua espada deixou muitas mães sem filhos, também a tua mãe ficará entre elas sem o seu filho’. E Samuel degolou Agag diante de Javé, em Guilgal.”
A religião para quem este livro é sagrado viria a tornar-se a ideologia oficial do Império, a encerrar, por pagã, a Academia de Platão, a pôr fim aos Jogos Olímpicos e a assinar momentos históricos grandiosos como as Cruzadas e a Inquisição. *
Hoje os cristãos do Ocidente lêem o livro de Samuel contextualizado (ah, mas nem todos e menos do que julgamos). Os filhos dos homem novos das antigas repúblicas socialistas soviéticas do Cáucaso, põem a roupa interior a secar nos canos ainda quentes dos canhões dos exércitos de Putin ou fuzilam crianças pelas costas nas Escolas, ou fazem-se explodir nos teatros da sede do Império, em nome da actualidade de Samuel.

*Cf O Significado das Coisas, A. C. Grayling, Gradiva, Filosofia Aberta, Outubro de 2002

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