10 setembro 2004

Crime no Sul de França

Não planeei a viagem, não me lembro sequer de me ter inscrito mas ali estava eu. Uma viagem ao sul de França organizada por uma agência pindérica, com um grupo de gente desconhecida. Estabeleço contacto rapidamente com quase todos. Devo dizer que esta facilidade no relacionamento é uma característica herdada do meu pai, que tento combater quando me apercebo da sua emergência. Esta consciência crítica do meu comportamento surge geralmente tarde demais, quando os dados já estão lançados, os laços enredados, os compromissos assumidos. Como sou comerciante, esta faceta, certamente inata, é-me por vezes útil e talvez daí o meu insucesso na sua repressão.
É sempre assim e não havia de ser diferente nessa viagem. Cumprimento, digo pequenas frases simpáticas, insinuo-me entre grupos pré-formados, combino actividades, convoco os indecisos. Entusiasmo-me muito com as parecenças. Aquele é parecido com o meu professor de Geografia. Aquela com a Sofia Coppola. Aqueles com Pedro o Louco e a Anna Karina. Aquele parece mesmo o Tom Waits. Aquela parece-me uma mulher que cruzei em Varsóvia. Se as viagens forem curtas, esta euforia semiológica pode durar até ao fim, originar troca de mails e números telefónicos, marcações de encontros futuros, projectos de novas viagens. Se a viagem é longa acontece-me uma de duas coisas. Estou sozinho e fundo-me com o grupo. Alguém me conhece e me olha com espanto ou severidade e acomete-me uma acedia sem saídas.
(continua)

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