21 setembro 2004

Enquanto não chega o mail de Loreta

Eu não sou Loreta Granada. Nunca teria imaginação para escrever sobre uma mulher como Loreta. Só conheço mulheres-anjo. São académicas, bem comportadas, muito instruídas, citam adequadamente, usam perfumes suaves de gladíolo e jasmim, sempre floral. São fiéis, não sei bem a quê, mas fiéis pelo menos à ideia de fidelidade. Têm emprego, ou vão ter emprego e têm futuro. Têm um presente fantástico, quase não têm passado e têm um futuro radioso. Algumas não vivem aqui. Estão em Boston, Copenhaga, Milão a fazer doutoramentos, post-doutoramentos ou em linhas de investigação de sucesso. Não conheço nenhuma professora à espera de colocação, arquitecta sem atelier, funcionária dos Correios sem balcão, jornalista desempregada, bailarina sem palco. Sei que há, e muitas. Sou solidário, posso até emocionar-me. Mas não conheço nenhuma. Não têm blogs. Não sei como se vestem, como prendem os cabelos, a que cheiram de manhã.
Loreta não é parecida com nenhuma das mulheres que conheço. Aliás ainda não conheço Loreta. Eu simplesmente recebo mails de Loreta, que nem me são dirigidos, vêm para a direcção do Mal. Leio, faço uma ou outra alteração (fui eu que pus aquela coisa sem jeito de eles falarem do Larkin e do Spielberg mas na verdade ignoro do que falaram) e posto. Ainda tentei estabelecer contacto. Responder a. Era um endereço do tipo lor2456@yahoo.com. Não tive resposta.
Ontem, estava a ler Coetzee, e encontrei esta frase terrível: "Os dentes foram feitos para estraçalhar e a lingua para revolver a comida". É preciso que alguém diga isto a Loreta, pensei. Mas depois lembrei-me que a noite dela na cidade de L. começou no Museu de História Natural. Talvez Loreta saiba demais disto: dentes e línguas, esófagos a abrir e a fechar.

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