24 setembro 2004

Fidelidade

"Adormeci nos braços dele e acordei três vezes de noite. Sentia-me bem. Estava no quarto dele, no hotel que também era o meu, na cidade de L. Sentia-me bem no meu corpo, nos restos do champanhe, na cama larga de um hotel, numa cidade que não me era hostil. Levantei-me e ele não acordou. Fui à mochila abrir a caixa das mensagens do telemóvel. O meu namorado tinha respondido. Correctamente? Já não me lembrava da resposta certa. Aquela servia-me. Estava confusa. Lembrava-me da cara dele, umas horas antes. Eu não o conhecia bem e estava escuro. Mas era uma cara bonita e lembro-me de que não era exactamente a cara do homem com que me tinha deitado e que não tinha tido tempo para ver rir, sorrir, zangar-se, surpreender-se, olhar longamente, surpreender-se. Abri os olhos algumas vezes e o que via era a cara de alguém com quem nunca tinha estado assim tão próxima, tão intima, como se costuma dizer. Via surpreendentemente a cara de R., um homem que eu não me lembro de ter sequer desejado, que me surpreendeu um dia por falar com uma voz tão doce, tão próxima de um instrumento de sopro. Pensava: é o Mamute. Achava que por decência devia pensar: é o Mamute. Mas o Mamute era um braço que abria para um peito largo, eram duas mãos enormes nas minhas coxas. Tive pena de não ter dado tempo à sua cara, afinal bonita. De não ter dado tempo aos lábios, aos dentes, ao ângulo do maxilar. Alguma ruga devia haver na testa dele, algum sinal particular que ao abrir os olhos me desse uma cara apropriada ao Mamute com quem me deitara no quarto que não era o meu, no hotel da cidade de L. Mas não podia fazer nada contra aquilo que me estava a acontecer. E era bom estar com R., afinal com R., inesperadamente com R. Desliguei o telemóvel e voltei para a cama para o calor do corpo do Mamute. Agora li o que vocês escreveram. Acho que não percebem nada. A matéria de que é feita a fidelidade? Eu estava a falar dos corpos não encaixarem como costumam."

set by//Loreta Granada

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