20 setembro 2004

Loreta e o Mamute

"Eu sou sentimental. Não aconteceu nada na minha vida que me fizesse assim, sou porque sim. Porque o mundo me devolve tudo maravilhado, por mais oposto aos factos que isso seja. Na cidade de L., tal e qual como nas outras cidades e dias, aconteceram coisas que eu pude encantar.
A verdade é o princípio da história, quando feri o meu pé na Avenida P. e ele me ofereceu um braço onde me apoiei, um pouco curvada e de rosto fechado, imediatamente apta a caber no formato debilitado que convinha ao seu braço forte. Falámos da terra dele, dos filmes do Spielberg, dos poemas do Larkin e fomos os últimos a entrar no Museu de História Natural. O grupo que acompanhávamos ocupava já todas as mesas e tivemos que nos manter de pé, o que facilitou a minha vacilação. O hall central, em redor do qual se distribuíam mesas, gente e aperitivos variados, era ocupado por um paquiderme à escala real, o que me fez para sempre pensar naquele homem como um Mamute. Por altura do terceiro copo de champanhe ficámos ambos, ou pelo menos assim o julguei, totalmente fixados nos papéis que íamos representar: um Mamute e um roedor minúsculo, um Esquilo talvez. Foi assim que me desconcentrei do braço e comecei a perceber o calor que tinha o peito dele. Era um peito tão grande, tão afável que o meu desequilíbrio não teve daí em diante outro sentido.
Quando o homem baixo e de uniforme - talvez o Castor - interrompeu a brilhante enumeração das leis que orientavam a criação de gado na Escandinávia e nos estremeceu para nos pôr na rua, tínhamos perdido definitivamente o resto do grupo. Só um Mamute podia conduzir-me ao hotel naquela noite de avenidas iguais, o que estava completamente de acordo com a nossa situação. Por essa altura já quase não falávamos. Murmurávamos antes, frases inacabadas e estrangeiras para os dois, o que obrigava a uma proximidade em que recebia toda a simpatia daquele peito onde queria ficar. Foi assim que atravessámos quatro avenidas da cidade de L., entrámos no Hotel M. e chegámos ao 15º andar e a uma janela com vista para tudo. A olhar ao longe o mais imponente, fálico e coincidente dos monumentos, deitei a cabeça naquele lugar quente."


//sent by Loreta Granada

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