13 setembro 2004

Loreta é supersticiosa

Loreta é sentimental e um pouco supersticiosa. Daquela vez estava a fazer um estágio na cidade de L., muito longe de casa. No Museu de História Natural tinha conhecido um rapaz. Ele era forte, com uma testa alta e um peito largo. Loreta pensou que deitar-se naquele peito largo devia dar uma grande serenidade. E como o rapaz a convidava para jantar tudo lhe dizia que esse dia era inevitável. Não sabe se pelo volume do rapaz se pelo sítio onde se conheceram, Loreta pensou sempre nele como um Mamute. No seu livrinho anotava: no bar Vaughan com o Mamute; passeio com o Mamute na Avenida Burlington. Nessa noite, no restaurante, o Mamute falou dos irmãos e da mãe, dos jogos de críquete da infância, dos filmes do Spielberg. Ela bebia e ia-se deitando confiante naquele peito que parecia um seguro para a eternidade. Antes de saírem pegou no telemóvel e escreveu ao namorado: “Estás apaixonado?” Na sua cabeça tinha – lhe dado um prazo de três minutos para ele dar a resposta certa. À distancia de vários fusos, o outro homem leu a estranha pergunta no meio de uma reunião de negócios. Percebeu que tinha muito pouco tempo para responder e que tinha de o fazer de uma forma simples e correcta. O que lhe estavam a pedir era uma senha. Envergonhado pela pausa que introduzira na reunião e debaixo dos olhares dos clientes ele escreveu: "Sim, por Loreta em L."
Em L. Loreta recebeu o sms antes dos três minutos terem expirado. Já iam na rua, a caminho da casa do Mamute. Estava um pouco tonta. Julgava que era de felicidade e apoiava-se tanto no braço dele que já sentia o calor do peito onde se ia deitar.

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