25 maio 2005

Critérios de Verdade

Disseram-me que tinha de aplicar a política de emagrecimento da Empresa e eu apeei o chefe da Estação de Semide, da Carapinheira, da Sertã, de Pedrógão, de Figueiró. Lembro-me sempre do Mandarim. Sei lá o que é a Sertã, Semide, Pedrógão, Figueiró. Assino os papéis. Os tipos recebem alguma massa, não é bem um despedimento. São apeados, é tudo. A empresa fica mais saudável. Pode-se oferecer emprego aos mais jovens. Precário, eu sei. Mas o que não é precário hoje em dia? O plano de que me encarregaram chama-se Orestes. Orestes foi um personagem da cultura helénica que, para salvar os habitantes de Corinto, teve de entregar aos Persas as populações das áreas limítrofes. De cada vez que assino um relatório de acompanhamento do Orestes penso nas palavras e no mundo real. Se o critério de verdade é a adequação das palavras aos factos os meus relatórios serão verdadeiros ou falsos? Foi isto que perguntei um dia a Lúcia, no tempo em que ela trabalhava em Nelas e eu a visitava aos domingos. Ela olhou-me com um ar determinado e respondeu que não sabia nada de filosofia e que os seus critérios de verdade tinham sempre por base as emoções. As emoções diziam-lhe que eu era um pulha. Frouxo, foi o que ela disse. No princípio pensei que eras um frouxo. Mas agora debrucei-me sobre os factos e sobre as tuas palavras. E o que tu és é um pulha.

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