24 maio 2005

Formação



Hoje estive num curso que os Correios organizaram para as lideranças intermédias e consegui não me lembrar de ti, Lúcia. Fui de véspera para poder descansar. Não bebi na refeição de trabalho. Tomei um café cheio, sem adoçante. E apesar desta preparação adormeci no workshop da tarde. Exactamente quando estavam a discutir a avaliação. A minha avaliação. O documento que me deram para preencher tinha o seguinte título: Ganhos com a utilização do aplicativo. Foi aí que começou o sono. De cada vez que baixava os olhos para o aplicativo não conseguia levantá-los de novo. Nesses microsonos ficava inteligente. Os ganhos tornavam-se evidentes e via-me a explicá-los, não apenas àquela mesa de líderes intermédios presentes e futuros, mas a uma vasta plateia encantada com a minha prestação. Apesar disso os acordares eram penosos. Não percebia o tempo que decorrera, nem se se tinham apercebido da minha sonolência. Mas se Lúcia não estava, face a quem me havia de envergonhar? A certa altura distribuíram uma escala que tinha a designação de Schmachen Q. O formador chamava-lhe Xemaquene Quiu. No meio de itens inteiramente incompreensíveis li alguns que, embora continuasse a cabecear, me entusiasmaram ligeiramente, : Assertividade, Percepção Sensorial, Resiliência e Forças de Fricção. O formador chamou-me:
- Importa-se de escolher os seus avaliadores? E explicou-me que devia escolher um chefe, três pessoas com a minha graduação e três subalternos. Eles procederiam à minha avaliação anual para o efeito utizando o instrumento a que chamavam Schmachen Q . Ao mesmo tempo faria a minha auto avaliação. Escolhi o meu chefe, o engenheiro Horácio. Três colegas , um deles apeado por mim da Estação de Semide. Subalternos não havia. A minha liderança era, ali, a de mais baixa hierarquia.
–Não interessa, disse o formador. O Regulamento prevê que nestes casos se indiquem mais três colegas do mesmo nível, idealmente de Estações diferentes.
A avaliação que eles fizeram da minha prestação este ano foi para mim uma surpresa. Eu não sou um líder autoritário. Nem consigo delegar. Mas sempre pensei que o meu trabalho era apreciado, que convencia as pessoas através do convencimento racional, do envolvimento no trabalho de equipa, na explicação correcta dos objectivos. Eles consideraram que eu era um líder sedutor. Não era um elogio. No léxico da formação, o sedutor é uma figura entre o demagogo e o parvo convencido. Estiveram todos de acordo. E em desacordo com a minha auto avaliação. Oito pessoas a uma mesa e sete pensam, de mim, a mesma coisa. Que tenho um déficit de liderança e preciso de mais formação. Eu não penso em nada. Nem em ti já penso, Lúcia .

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