22 novembro 2005

As cartas de amor de António Lobo Antunes





Escritas por um jovem médico na fronteira do império mais miserável da história colonial europeia, as cartas foram editadas pelas filhas após a morte da mãe, que as guardou. Compreende-se a emoção, que é contagiante, e o orgulho. O escritor ainda não as releu, embora tenha apoiado o lançamento, de uma forma que só faz aumentar a estima dos admiradores entre os quais, por motivos históricos, me conto. A Memória do Elefante, a Explicação dos Pássaros e Os Cus de Judas foram talvez os livros mais importantes daqueles anos da minha vida, pela novidade da escrita e dos temas, pela personalidade do escritor que através delas se afirmava, irónico, desiludido, pelo efeito de proximidade à geração que naquela altura chegara à idade de trabalhar e se apercebia de que a festa terminara.
O escritor que ele se sabia está nas cartas de amor. E não é difícil de perceber que o material de que foram feitos os livros referidos foram aqueles anos de 1971 a 73, em que repetia à sua jóia querida que gostava tudo de ti e anunciava a escrita fatal onde se cumpriria o seu destino literário. Que nos livros do final da década esse amor fosse só uma ferida, não espanta aos cínicos que sabem que ele só é imortal enquanto dura. Um livro triste, se nos lembrarmos que provavelmente hoje ainda, homens que julgam ter um destino literário, escrevem cartas, provavelmente mails, a mulheres que provavelmente os acreditam.
Um livro que talvez interesse aos biógrafos de António Lobo Antunes, aos estudos literários e à memória da guerra colonial .

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