06 novembro 2005

Noite em Bobigny


Esta noite sonhei. Ia num autocarro e tinha de comprar leitão. “Para dez pessoas mas só oito comem”, disseram-me. Porque ia eu procurar leitão a este bairro? Que quantidade ia encomendar? Era pobre e inválido e talvez fosse uma mulher pobre e inválida que ia comprar leitão sem esperança de comer. O autocarro parou numa placa que anunciava Bobigny. Sim, recordava-me de ter ouvido gabar o leitão de Bobigny, bem melhor que o da Coupole que é mal assado e cheio de humidade. De repente um grupo de jovens aparece nos passeios e começa a atirar cocktails Molotov para o autocarro. Este continua mas poucos metros depois, incompreensivelmente, reduz a marcha, pára, abre as portas e as pessoas fogem. O último a abandonar é o condutor que me grita para o acompanhar. “Sou velha , inválida e vim a Bobigny para comprar leitão”, disse-lhe.”Por que razão hei-de fugir?”. Pela porta do meio entraram então dois jovens e traziam garrafas incendiadas nas mãos. Um tinha a cara do Zé Manel Fernandes, mas podia ser a do Espada, magro, muito sério, a cara que esperamos encontrar no juízo final. A outra era uma cara que podia ser feminina, provavelmente a da Helena Matos. Atiraram as garrafas aos gritos: “Toma lá o modelo social europeu”.
Acordei e era manhã. Do Hospital, Rodrigo, atormentado por dores há oito longos dias, enviava-me a seguinte mensagem: “Aleluia. A cabra mocha a filha das trevas a raios que a partissem foi-se embora para as profundas de onde nunca devia ter saído.” Eu respondi-lhe: “Então é aproveitares. Bora daí. Há sol e copos”. Não falei do leitão porque não sabia se Rodrigo, com 47 quilos, estava incluído nos dois que iam comer.
Depois mandei uma mensagem a André Bonirre que caminhara toda a noite nos regatos do Caramulo. E a ele perguntei-lhe que bichos tinha visto. Demorou a responder, talvez dormisse depois da caminhada da noite:” Tritões, salamandras e as meninas, princesas encantadas”. O género de resposta que eu esperava dele.
Saio de casa com a urgência de escrever um poema que diga: "Madame, mas tome a lei oposta e faça um peristilo". Coisas fictícias piscam quando piscam. E só conseguia dizer: Vous êtes si charmante, vous êtes si troublante, vous êtes si changeante.
A essa hora, Rodrigo, depois de chamar as enfermeiras sem sucesso, levantou-se e caminhou pelos corredores em direcção à saída, arrastando os soros e infusores. Os doentes assomaram às portas dos quartos julgando tratar-se de música celestial e viram-no avançar, muito magro mas claramente saudável. E apercebendo-se da ausência das enfermeiras acompanharam Rodrigo na fuga, pois há muito tempo que não estavam doentes. E deixaram o Hospital, embora à saída estranhassem a intensidade do sol e sentissem algumas saudades dos médicos, que aliás não viam desde o internamento, o que se compreende, já que estamos na época dos Congressos.
Na rotunda do Hospital ouviram-se os passos de uma enfermeira esbaforida e sete seguranças. Rodrigo tinha então mais de trezentos estropiados atrás e podia continuar caminhando sem risco de ser perturbado. Mas na colina de frente apareceu o Papa Bento XVI, de óculos de sol e sapatos Prada. E todos pararam em silêncio recolhido, tendo a enfermeira, que não era devota mas sabia reconhecer a etiqueta vermelha, avançado pela turba e, sem deixar de olhar para o Santo Padre, retirou as agulhas das veias de Rodrigo e pediu-lhe para segurar com força o algodão alguns minutos.
Procuro um ciberkiosk para escrever : “Bendita seja a raiva dos morcegos!” E felizmente está um aberto, aqui no centro, é só preciso aguardar que os rapazes da Colômbia acabem as conversas com as noivas. Enquanto espero, confirmo que os livros de Novembro não têm interesse nenhum. Esqueço-me do que vinha escrever mas permanece, estranhamente aguda, a urgência de escrever e o sofrimento por estar a perder um amor que nunca existiu. E a responsabilidade de comprar, em Bobigny, um leitão que agrade a todos.
De facto, no sonho que tive, era eu quem atirava os cocktails Molotov. Era eu o díscolo que entrou no autocarro e atirou a garrafa em chamas à mulher que permanecia sentada. Ela virou para mim a cara da analista Helena Matos, uma cara onde brilhava uma certeza confirmatória, e disse: “C' est ça le modele social européen?!”
Como é que eu podia saber que era paralítica?

(Olha Bonirre, quando chegares põe uma imagem das tuas. Ou apaga. Créditos para Wallace Stevens e para um cantor francês. A imagem é a que a Skyblog colocou quando apagou o blog Bouna et Zied, que os rapazes de Clichy sur Seine tinham criado para homenagear os dois amigos mortos na semana passada )

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar feedback [Atom]

<< Página inicial