14 novembro 2005

Notícias do Apocalipse com mensagem de esperança


Eu acredito que há alguma coisa de verdadeiro na análise de Immanuel Wallerstein sobre o desmoronamento do actual sistema-mundo (já não há mais locais para deslocalizar as empresas, a consciência ambiental das populações diminuiu os lucros, as energias fósseis estão-se a esgotar mais rapidamente do que pareciam). A globalização iniciada em 1490 vive os seus últimos e dolorosos anos. Pode ser que esses anos pareçam muito longos. Pode ser que, por uma questão de escala, não consigamos perceber o sentido geral desse movimento. Talvez não haja saída. Ou emirja, gerado pelos mesmos que neste sistema detêm o poder e os privilégios, um sistema tão injusto como este. Nenhum dado está lançado. A violência da invasão do Iraque e da presença aliada no Iraque é um capítulo da reorganização dos poderosos que beneficiam com o actual sistema-mundo. O fogo nas ruas de Paris é um sinal do caos destes anos finais. Eu não me revejo na violência, nem numa nem noutra, detesto a violência e queria estar longe dela. Mas nenhuma polícia nem exército me defende, porque as polícias e os exércitos estão a mando da iniquidade. Falam do direito e do estado de direito. Mas mudam as leis quando lhes apetece. Interpretam-na a seu prazer. Têm gente treinada para isso, a quem não interessa o apuramento da verdade mas os interesses e o dinheiro do cliente. Isto soa muito radical. Mas só os mal informados, ou os muito jovens, ou os beneficiários falam hoje o discurso do consenso.
Crescemos demais. Isto não devia ter sido assim. Estávamos bem em grupos de quarenta, a caçar e a apanhar os frutos das árvores. A dormir juntos em volta da fogueira, a caminhar na direcção dos bisontes, desenhar nas grutas, ver crescer juntas as crianças. As mulheres envelheciam terrivelmente, eu sei. Mas não todas. Nem sempre. Não havia agricultura nem animais domésticos. Leite só o das mães. Quase todas as doenças menos as da senilidade. Os nossos chefes tinham que dar provas. Quando fraquejavam, nós continuávamos para os prados da primavera. Tínhamos fome, frio, medo, sono, sede. Nas pontas dos dedos os homens traziam o cheiro das mulheres e viviam em permanente estado de necessidade. Estes são os valores. O resto é ideologia, religião, direito. Tudo formas para justificar o privilégio. Falo de um tempo em que ainda não éramos tantos. Os que souberem do que falo serão os mais bem preparados para os tempos que hão-de vir. Entretanto divirtam-se a discutir o Tribunal da Relação. Eram só três homens, porra. Funcionários públicos entre duas greves, aflitos com o colesterol e a integração na assistência à doença dos servidores do Estado. Aflitos com a ideia de, no fim do Acórdão, terem de repetir 7-8-4-5 ou perder a aposta.

(para o CBS e para a Zazie, meus amigos)

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