27 novembro 2005

Sobre o documento da ICAR acerca da ordenação de rapazes com orientação homossexual.

Na semana passada a imprensa noticiou um documento da ICAR em que se recomenda aos reitores dos seminários a detecção de seminaristas com tendências homossexuais para que estes sejam afastados do sacerdócio. VPV, entre outros, argumentou que os ateus, os jacobinos e a esquerda se deviam calar porque não é nada com eles. O padre João Canijo que a ICAR levou às televisões tinha dito o mesmo por outras palavras menos subtis: “se quero contratar uma secretária tenho direito a escolher os seus atributos”. Um sacerdote, a sua escolha, é um assunto interno dos católicos. Só a eles compete pronunciar-se sobre os critérios da sua escolha. Calem-se os outros. Aqui, nos comentários, Esculápio receitou-me gentilmente o mesmo. Deixar os padres e as freirinhas em paz e preocupar-me com o que verdadeiramente interessa. Suponho que só me é reconhecido falar do meu clube de futebol, do cine clube, da junta de freguesia e da sociedade científica para a qual pago quotas. Acontece que na minha escola havia um crucifixo, se rezavam avé marias e padre nossos. Se não tínhamos falta à missa do dia um de Novembro não foi por acção do reitor e do padre que o aconselhava. Foi há muito tempo, dirão e não vale a pena bater nos ceguinhos. Acontece que a ICAR não é uma instituição qualquer da vida nacional. É a instituição que transporta a fé, a única fé, aspira a converter todos à sua norma, dirige-se a todos e não apenas aos que a ela livremente se entregam, intervém activamente na vida pública. Não apenas considera o aborto moralmente errado, como um crime civil. Não defende que os católicos não devem abortar, mas que o aborto deve ser punido criminalmente, remetido à clandestinidade. O inferno não é um castigo para os associados da ICAR que infrinjam os regulamentos. Ao teimar em manter o sacerdócio uma prerrogativa dos homens com orientação heterossexual não está apenas a tomar uma opção por um modelo, está a dizer que as mulheres e os homossexuais têm uma inferioridade congénita, uma diminuição de capacidades, que não os torna capazes de, ao mesmo nível dos heterossexuais masculinos, exercer o magistério da ICAR, renunciar à dimensão inteira da sexualidade por uma escolha que privilegia a castidade para melhor interpretar e difundir a mensagem religiosa. Uma associação que exclui as mulheres e os homossexuais dos cargos dirigentes não se revê nos valores modernos e não merece confiança para educar as crianças e os adolescentes, promover a saúde e tratar a doença, para tal recebendo subsídios do estado. O escrutínio da orientação sexual dos seminaristas tendo como objectivo a detecção e expulsão dos suspeitos homossexuais é repugnante e ilegal. O respeito que tenho pelos católicos e a amizade e admiração pelos que conciliam a fé com o combate pela dignidade humana é inseparável da crítica ao ultramontanismo.

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