09 dezembro 2005

Racista

Vi-o no super mercado. Estava de costas para mim, a receber uma chamada. Tinha os cotovelos levantados e apoiava o corpo alternadamente num e noutro pé. Era a imagem esplêndida do gosto de viver, do prazer sem medida de estar vivo e da vida ser maravilhosa. Quando me aproximei podia ouvi-lo mas não importa o que dizia ao telemóvel. Sorria, o corpo puxado para cima, a leveza e a inocência de quem acredita. Escondi-me atrás do expositor, para que não me visse. Fiquei ali,perturbado, fingindo procurar um dos inúteis produtos expostos. Imaginara-o a cruzar os olhos comigo e a ver a cara de um racista. O olhar, a boca, a desaprovação do racismo. E que então se quebrara nele a alegria, a excitação, a expectativa, a confiança dos seres jovens que são plenamente, tendo como única razão o espanto de existirem de forma tão perfeita. Assustei-me com o delírio do meu cérebro doente, entregue a devaneios que lhe desconhecia. Tentei um reflexo que me dissesse não ser aquela a cara que trazia, mas ninguém olhava para mim, nem mesmo o rapaz preto que continuava a chamada. Quando me restabeleci dirigi-me ao balcão, entreguei as compras, que couberam todas em dois sacos de plásticos, e paguei. Já na rua, um bando encostou-me uma faca ao peito, e depois ao pescoço, tirou-me os sacos, a carteira e o blusão. Quando eu despia o blusão mandaram-me descalçar as botas e ao debruçar-me, bateram-me. Chamaram-me racista. E porco racista. Espantei-me com a velocidade com que correm estas notícias. Eu sabia que era, no mais profundo de mim mesmo, e que merecia castigo, mas não tinha ainda tido tempo para aquela culpa tão recente.

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