04 janeiro 2006

Albert Camus



Camus era uma aventura singular de nossa cultura, um movimento cujas fases e cujo termo final tentávamos compreender. Representava neste século e contra a história, o herdeiro actual dessa longa estirpe de moralistas cujas obras constituem talvez o que há de mais original nas letras francesas. O seu humanismo obstinado, estreito e puro, austero e sensual, travava um combate duvidoso contra os acontecimentos em massa e disformes deste tempo. Mas, inversamente, pela teimosia das suas repulsas, reafirmava, no coração da nossa época, contra os maquiavélicos, contra o bezerro de ouro do realismo, a existência do facto moral. Era, por assim dizer, esta inquebrantável afirmação. Por pouco que se lesse ou reflectisse a seu respeito, chocávamos com os valores humanos que ele sustentava com o seu punho fechado, pondo em julgamento o acto político.

Mesmo o seu silêncio, nestes últimos anos, tinha um aspecto positivo: este cartesiano do absurdo negava-se a abandonar o terreno seguro da moralidade e entrar nos incertos caminhos da prática. Nós adivinhávamo-lo e adivinhávamos também os conflitos que calava, pois a moral, se a consideramos, exige e condena conjuntamente a rebelião. O que quer que Camus tivesse podido fazer ou decidir, a sua frente nunca teria deixado de ser uma das forças principais do nosso campo cultural, nem de representar à sua maneira a história da França e do seu século.

A ordem humana continua a ser só uma desordem; é injusta e precária; nela se mata e se morre de fome; mas pelo menos são os homens que a fundam, a mantêm e a combatem. Era nessa ordem que Camus devia viver: este homem interrogava-nos, ele mesmo era uma interrogação que procurava a sua resposta; vivia no meio de uma longa vida; para nós, para ele, para os homens que fazem com que a ordem reine como para os que a recusam, era importante que Camus saísse do silêncio, que decidisse, que concluísse. Raramente os caracteres de uma obra e as condições do momento histórico exigiram com tanta clareza que um escritor vivesse.

Para todos os que o amaram há nesta morte um absurdo insuportável. Mas, teremos que aprender a ver esta obra truncada como uma obra total. Na medida mesmo em que o humanismo de Camus contém uma atitude humana frente à morte que havia de surpreendê-lo, na medida em que sua busca orgulhosa e pura da felicidade implicava e reclamava a necessidade desumana de morrer, reconheceremos nesta obra e nesta vida, inseparáveis uma de outra, a tentativa pura e vitoriosa de um homem reconquistando cada instante de sua existência frente à sua morte futura.


JEAN-PAUL SARTRE (escrito na morte de Albert Camus, a 4 de janeiro de 1960)

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