12 janeiro 2006

Espanta Pereira



Há dois anos tivemos um pesadelo colectivo. Viveríamos num país que teria nas duas principais figuras de Estado, Durão Barroso e Cavaco Silva. Não foi bem assim. Os sonhos são os jogos da infância. Mantêm-nos próximos da realidade sem nos queimarmos nela. Permitem experimentar o que parece insuportável. Dois anos depois aí estão: Sócrates e Cavaco. Para animar os vossos dias. Que tivesse sido preciso Lopes para chegar a Sócrates; que tivesse sido preciso Sócrates para chegar a Soares/Alegre- isso não era de todo previsível. Embora não pareça essencial. A geração que nasceu no cavaquismo e cresceu na telenovela, mais os broeiros que não sabem as funções presidenciais, vão lá pôr a cruz na alminha. Isto pode encher de melancolia os que sonharam com uma terra da alegria, ou que acreditaram que este não era já o país miserável que garrotilhou a rainha Estefânia, cheio de pó e quase sem árvores, onde tirando Fontes não se vislumbrava outro político em que se pudesse ter confiança. Essa melancolia espanta Pereira. Mas mais me espanta a alegria de Pereira. Há um Pereira no Abrupto que aprecio. Há um historiador do Comunismo que por vezes me fascina. Há um Maquiavel sem príncipe de que tenho pena, esse sentimento entre todos detestável. A vitória de Pereira é tão pequena, tão risível, tão destituída de sentido, como a nossa melancolia.

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