27 fevereiro 2006

Gisberta



Vieram e atiraram-me pedras. Depois talvez se tivessem excitado com o meu sangue porque se aproximaram e começaram a bater. Só doeu ao princípio. Há um momento em que a dor abre o alçapão onde nada se sente, nem se vê ou ouve. Aí eles podem bater. Contava cada golpe. Contar é das últimas coisas que se perde. Seis. Sete. Oito. E depois pensava que tinha perdido a conta exacta das pancadas, porque algumas eram simultâneas e talvez não as tivesse discriminado. Era a minha única preocupação. Não saber o número exacto das pancadas que me tiravam a vida. Há sempre na vida alguma coisa que faz sentido e isso fazia sentido naquele momento. Alguém me iria fazer perguntas e alguma coisa eu havia de saber responder. Ao menos o número exacto das abrasões, dos hematomas, das lacerações. Vinte e um, vinte e dois. Depois uma grande serenidade e uma luz intensa. Trinta e três. Trinta e quatro. Os rapazes eram o carro do lixo que passava. Algum dia teria de ser. Reconheceram-me e eu sabia ao que vinham. Quarenta e seis, sete, oito. Mais luz. É agora facílimo contar.

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