10 fevereiro 2006

Religião / Política / Autoregulação



Se isto é religião então devemos mobilizar-nos contra uma religião que condena à morte e mata por delito de opinião. Todas as religiões têm aspectos positivos e negativos. A tentativa de explicação do mistério da realidade, a incorporação de tradições orais, o mergulho na história do mundo e da humanidade, o misticismo como experiência interior de continuidade com as coisas. Mas também a desconfiança se a ciência ameaça o que se julga ter sido revelado, a divisão entre crentes e não crentes, os aparelhos religiosos e as suas hierarquias, as práticas religiosas a organizar e moldar o quotidiano. Simpatizo com alguns aspectos da religião islâmica. Mas acho que nenhum código religioso medieval serve para a regulação das sociedades modernas e não esperem de mim compreensão, ancorada no multiculturalismo e no respeito pelo outro, quando se encerram as mulheres, se põem polícias de costumes de chibata na rua, se ensina a ler pelo Corão. O combate pela modernidade que os muçulmanos progressistas travam, não é ajudado pelo bom senso dos ocidentais, pela tolerância face aos imãs analfabetos que lembram os padres ignorantes de que falava a rainha Dona Estefânia, pela cartilha relativista que vê a rua árabe como as praças dos auto-da-fé e diz que é questão de esperar trezentos anos.

Se isto é política, então vamos discutir a tomada do poder pelo Hamas na Palestina, a entrada do Irão no nuclear, a rua incendiada de França. Pintei a cara de vergonha quando as tropas da coligação anglo-americana entraram no Iraque. Mas se as bombas do terrorismo islâmico, que comanda a actual campanha de indignação, deflagrarem num doa aeroportos por onde tenho que passar, numa biblioteca , num teatro, num café dos vários países onde gosto de estar, não vou ter tempo sequer para me arrepender. Se o Irão aceder ao nuclear eu, que sou pelo desarmamento total, sentir-me-ei muito mais inseguro e desprotegido. Porque os Estados Unidos e o Reino Unido têm, apesar de tudo, democracia, instrumentos para controlar os governantes, e gente vigilante sobre os seus governos e exércitos, gente que há sessenta anos não vem para a rua senão para celebrar a paz.

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