03 março 2006

Olhem para o crime praticado no Porto

Uma vez escrevi aqui que era melhor dormir debaixo de uma ponte do que num ninho de pequenitos, numa das mil instituições de acolhimento onde despejamos os deserdados das tribos. Houve logo uma alma sensível e vários apoiantes que se revoltaram com o excesso. Volto a dizer: é melhor dormir debaixo de uma ponte que na oficina do santo, no lar dos órfãos, na casa de nossa senhora. O problema não é da Igreja nem dos padres. A Igreja faz o que pode. A Igreja é, neste campo, uma organização especializada de exclusão social. Pagamos-lhe para isso. Para manter estas crianças longe da nossa vista. E exigimos o mesmo à Assistência Social. E aos jornalistas pedimos bom senso e bom gosto. Não nos venham cá chatear com a Gis nem com o crime praticado no Porto. Da barbárie sabemos o que é preciso. Ontem como hoje queremos música no coração. Têm soluções? Se não têm deixem-nos viver a ilusão das nossas vidas. Alarguem as prisões, construam mais centros de internamento, entreguem-nos à farmacologia, aos psicólogos, aos sociólogos, às equipas multidisciplinares, ao serviço social e à polícia.
Vem aí uma nova idade de internamento.
Eu sou pela ponte. Pelo vão da porta. Pelo banco de jardim. Sou pela chaga aberta. Pela exposição das feridas. A violência não é um objecto estético, nem um buraco negro num eu indizível (como julgam os adeptos de Capote). A violência, quando se abate sobre nós ou sobre os nossos, é intolerável, um escolex que adere às vísceras e vem para ficar. E assim é a miséria e a pobreza. A doença e a dependência da droga. O abandono e a exclusão.
É preciso fechar as casas a que hipocritamente chamamos de abrigo e abrir as portas das nossas casas.

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