14 março 2006

Primavera



Vais numa maca, a manhã já alta. Fechas os olhos, mas reconheces, pelo ruído, os passos lentos dos chefes de serviço, os passos largos dos internos, o silêncio dos delegados de informação, as saudações campestres das auxiliares. Entras em corredores mais estreitos. Passas pela humilhação do tapete de transfert. É a primeira vez que entras num sítio daqueles sem lavar as mãos. Um homem debruça-se sobre o teu corpo e comenta o trabalho de escanhoamento. Repetem as perguntas sobre próteses. Não levas nada de teu, nem o medo, nem a esperança. Agora podias levantar-te e deitar-te nessa mesa. Mas ali não existes como coisa que mexa ou fala. Vês o laringoscópio e a lâmina que te vai entubar, um pénis monstruoso a quem, na máxima erecção, tivessem retirado os corpos cavernosos. Vão-te partir os dentes incisivos, um percalço. Canalizam-te duas veias, pintam-te o corpo. Particularmente as costas. Preferias que te abrissem pela frente. Talvez te desse alguma vantagem verem-te a cara, os olhos parados atrás das cruzes do steri-strip. Começa a perfusão do soro que adormece. Pensas na quantidade de gente de quem não te despediste, as coisas que não disseste, a merda de posts que falhaste, a casa desarrumada, o rio da prata, as estradas alagadas de Dresden, os quintais da rua F., o colégio do Condestável, uma cela da Penitenciária, uma biblioteca, os quatro rapazes a nascerem na maternidade, uma suzuki 7 1/2 atravessando a floresta negra, as janelas iluminadas de Oxford, o Naranjo de Bulnes. Olhas para o tecto e vês o olho dentro do triângulo. Talvez deus exista e não console, pensas. Se acordares, que alguém compassivo te dê morfina e te lavem os dentes com elgyfluor gel. Olhas outra vez. Faces mascaradas. Não terás a sorte de Bertrand Morane. É o primeiro dia de primavera, mas dentro do quirófano é sempre a mesma noite.

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