12 abril 2006

Bebelplatz



Meia -noite de sábado em Berlin, na Unter den Linden. À luz misteriosa dos focos, incrustados no chão ou em pilares, desvelam-se os novos edifícios. Há muita gente nas ruas, diluída nos grandes espaços. De súbito sou ultrapassado por um grupo numeroso de estudantes ingleses.
Procuravamos a Bebelplatz, onde Misha Ulmann, no final dos anos 80, incluiu uma evocação da noite da Queima dos Livros pelos nazis. A praça estava belíssima : A ocidente, agora limpa, a fachada da Universidade Humboldt. A Staatsoper a este, e ao fundo, se não me engano, esse estranho edifício barroco a que chamam "Kommode", a Alte Bibliotek. Do interior da praça, perto do centro, jorra um feixe de luz. Uma das grandes lajes que cobrem o chão foi substituída por um vidro espesso. Em baixo há um poço de luz. Quando nos acostumamos, vemos que o fundo do poço é uma cela forrada a estantes. Vazias. Brancas. Gravada com discrição no chão da praça está uma frase de Heine, que não recordo, e outra lembrando que na noite de 13 de Maio de 1933 os estudantes da Universidade Humboldt queimaram, num auto-de-fé, os livros de filósofos, publicistas, investigadores, cientistas que não estavam de acordo com as suas ideias.
Na penumbra da Bebelplatz os jovens ingleses formaram dois grupos e sentaram-se no chão. De mochila, quase sem se distinguir dos outros pela idade, um deles é ouvido em silêncio. Atraso o passo e ouço-o falar nos "perigos de erigir o outro em ser demoníaco".
Naquela noite, na nova Berlim cosmopolita – a cidade mais fascinante da velha Europa, os ingleses, netos dos jovens que bombardearam e foram bombardeados, mataram e morreram, estão a reabilitar a noite da Queima dos Livros.

Aparentemente passou muito tempo. Talvez agora já ninguém saiba quem foi Auguste Bebel, nem isso seja importante. Bebel é um nome de praça. Bebelplatz. Junto à Kommode, o monumento de Misha Ulmann é um fio de luz nas sombras. Volto sobre os meus passos para me cegar de novo com a luz das estantes vazias e à medida que me aproximo, vem-me, como uma dor que não chega a ferir, uma frase envolta numa recordação: anos sessenta, a revista Vértice, que os meus pais assinam, traz sempre uma frase na contracapa: "Todos os livros queimados iluminaram o mundo."

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