16 abril 2006

Tolerância Tridimensional




Este texto foi escrito quando, depois da publicação de Os Versículos Satânicos por Salman Rushdie, os hierarcas iraniano apelaram ao seu assassinato e prometeram o paraíso aos executores. Rushdie tinha escrito livros fundamentais para a compreensão da experiência dos emigrantes das ex-colónias na Metrópole (Vergonha), sobre a independência da India e do Paquistão (Os Filhos da Meia Noite). Mas geralmente, os que têm o poder sobre as vidas dos outros, são ignorantes, e não se detêm em pormenores. O que o outro realmente escreveu, ou desenhou, ou filmou, ou disse, parece ser o que menos interessa, no grande debate civilizacional. Essa cegueira para os factos não atinge apenas os censores. Num recente debate sobre os cartoons dinamarqueses, num anfiteatro da Universidade de Coimbra, José Pacheco Pereira, um dos intervenientes, quis mostrar, através da análise do seu modo de produção, que os cartoons se inscreviam na tradição da sátira política democrática, de Plantu a António. Quando pensou em projectar os objectos de análise, sentiu constrangimentos. E, ninguém, da plateia de luzes, se interrogou por que diabo estavam ali a discutir objectos que não tinham coragem de projectar.

Este texto foi referido por Desidério Murcho num Mil Folhas recente. Faz parte de uma colectânea de textos sobre a natureza humana, o Estado, a liberdade, os direitos, a justiça entre os grupos, o progresso e a civilização. Foi editado por Michael Rosen & Jonathan Wolff na colecção Oxford Readers da Oxford University Press, em 1999. Não se encontra em nenhuma das livrarias de Coimbra. Não se encontra em nenhuma das livrarias da Baixa de Coimbra porque estão moribundas, como a Baixa de Coimbra, à espera da cobertura delirante de um autarca. Não se encontra na livraria da Praça, que nem os livros da editora de que é propriedade (Almedina) divulga. Não se encontrará na FNAC de Coimbra, porque a FNAC de Coimbra é para Coimbra, e os estudos de mercado ensinaram aos mercadores que bacalhau devem trazer: a área de livros será muito inferior à de electrodomésticos.

O texto foi lido e traduzido por algumas pessoas que, no debate, tiveram uma atitude de tolerância do primeiro grau. Isto é , preferiram manter-se silenciosas para não ferir as convicções religiosas da maioria dos elementos da mesa e das meninas de lenço palestiniano. Mas que ficaram em dívida para consigo mesmas. Façam bom proveito. E não se esqueçam que já é demasiado tarde.




Apelar ao outro para a tolerância significa invocar alguns valores em comum. Quando o fazemos pensamos que algo como o conhecimento, a liberdade, a segurança ou até a simples possibilidade de uma vida decente para todos, estarão ameaçadas a menos que encontremos um modus vivendi. Mas não podemos fazer esse apelo se não tivermos interesses em comum, ou se os nossos interesses forem diferentemente coloridos por fés e perspectivas rivais. Se alguém está convencido que a vida, literalmente, não vale a pena ser vivida, que não vale a pena procurar a verdade ou que não vale a pena exercer a liberdade na companhia do infiel, não há base para discussão e, mesmo que tenhamos essa base de interesses em comum, isso leva-nos apenas a meio caminho. Não se pode escapar ao facto de as vidas erigidas sobre esta base comum poderem diferir na fé, no sentido e aspirações.

A tolerância, o respeito mútuo, viver e deixar viver podem ser concebidos de diferentes modos. Numa perspectiva unidimensional a tolerância implica deixar as pessoas sozinhas com a sua fé e sensibilidades. Devemos ter cuidado para não dizer nada que critique ou fira as convicções religiosas de alguém.
Mas a fé não pode ser selada desta maneira. As religiões mundiais têm pretensões rivais quanto à natureza e à essência de deus e quanto ao sentido da vida humana. O respeito mútuo não pode requerer que se prescinda da crítica, quanto mais não seja porque a crítica de outras seitas está implícita nas afirmações de qualquer credo particular.

Um segundo tipo de tolerância aceita esta ideia e acrescenta-lhe uma dimensão de debate. A crítica e a discussão entre fés rivais são aceitáveis e incontornáveis. Mas esta tolerância bidimensional insiste em que ela deve ser séria, honesta e respeitosa no seu carácter. Tenho que ser sensível ao papel que estas crenças desempenham na vida de alguém e não lidar com elas de forma ligeira, sarcástica ou insultuosa. Segundo este modelo os Versículos Satânicos correram mal, não por dizerem coisas contra o Islão, mas pelo tom ofensivo que adoptaram. A tolerância bidimensional tenta combinar os valores da busca da verdade com o princípio do respeito. Esta tolerância deixa espaço para o debate mas afasta o escárnio, a ofensa e o insulto. Acima de tudo, permite-nos compreender noções como sacrilégio e blasfémia, não como ideais internos a uma religião, mas como princípios que enformam o que devemos uns aos outros enquanto seres humanos no respeito pelas convicções mais profundas.
Mal dizemos isto apercebemo-nos da falácia desta tolerância bidimensional. Porque o que é sério e o que é ofensivo, o que é sóbrio e o que é sátira, não são conceitos neutros. Fazem parte do pacote e diferentes religiões definem-nas de formas diferentes. Em algumas tradições rabínicas o debate teológico processa-se através do conto de anedotas. Há seitas muçulmanas que consideram uma afronta insuportável a participação de uma mulher numa discussão religiosa, independentemente da sobriedade do seu tom.
O modo como as disputas religiosas devem ser conduzidas é, em si mesmo, um problema sobre o qual os pontos de vista religiosos se dividem. Esta questão está imbuída da ideia de que a fé toca nas regiões mais profundas da verdade, do conhecimento e dos valores. Não há nada necessariamente privilegiado nas normas de civilidade a que chamamos de seriedade moral e, de facto, pedir à controvérsia religiosa que observe as mesmas regras de um debate ponderado num rotary club do Midwest pode ser o pior , não o melhor, de ambos os mundos. Da mesma forma é pretensioso pensar que há um modo de governar uma sociedade multicultural sem perturbação nem ofensa. Quando Stuart Mill apresentou a sua tese a favor da livre discussão, a perturbação da complacência e o abanão na fé eram valores positivos no debate. É difícil imaginar como a liberdade de expressão poderia ter avançado se se tivesse mantido psicologicamente inócua. Seja como for, algumas pessoas agarram-se às suas crenças de forma tão devota, que mesmo a crítica mais sóbria e respeitadora lhes parece um insulto mortal à sua personalidade. Alguns são tão devotos que a simples presença do ímpio ultrapassa o que são capazes de suportar.
Se as questões são tão importantes como parecem, então, o desconforto perante as respostas dos outros é parte do preço a pagar por temos colocado essas mesmas questões. Não se pode invocar a sensibilidade quando a parada está já tão alta.
Os compromissos religiosos têm conteúdo, levantam questões importantes, não apenas para um crente, mas, pelo menos potencialmente, para toda a gente. As questões de saber se há um deus, como é que ele é, o que quer de nós, se existe o Mal - estas questões importam. O estilo de resposta de uma pessoa, ou mesmo de um milhão de crentes, não pode impedir os outros de colocar as questões no estilo que lhes parecer mais apropriado.

Somos então levados à tolerância tridimensional. As pessoas e os povos devem deixar-se uns aos outros livres para colocarem as questões da religião e da filosofia da melhor forma e com todos os recursos que tiverem à sua disposição. No mundo contemporâneo isto pode significar que toda a panóplia da técnica literária- a fantasia, a ironia, a poesia, os jogos de palavras, o malabarismo das ideias - é usada naquilo que muitos consideram o sagrado, o imaculado, o dogma. Como poderia ser de outro modo? Ou as questões são importantes, ou não são. Se o são, nós sabemos que elas põem à prova os nossos recursos psicológicos e intelectuais. Conduzem-nos aos limites da disputa linear e para além deles. Porque dizem precisamente respeito aos limites, ao que é assustador, perturbador, impensável. As religiões do mundo consagram os seus símbolos, fazem as suas afirmações, contam as suas histórias e tudo isto é lançado no mundo como propriedade pública, parte da mobília cultural e psicológica que não podemos adorar em bicos dos pés ou pegar com pinças cautelosas. No nosso desejo de dar sentido à existência, temos que fazer o que podemos com as questões e as respostas que foram lançadas sobre nós.

É dito por vezes que o humanismo secular é também uma religião como as outras. A ponta de verdade desta afirmação consiste em que as questões levantadas pelas religiões são-no para todos. Mas se esse é o caso, as grandes religiões não podem estabelecer os termos nos quais estas questões devem ser tratadas. Por exemplo, todos andamos à procura de uma compreensão de nós mesmos, dos nossos corpos e da experiência intensa da nossa sexualidade. Encontramos, nas nossas culturas, lendas acerca de homens puros e de santos como Maomé e até a afirmação de que deus assumiu forma, carne e sangue humanos, na pessoa de Jesus Cristo. O dogma da encarnação, em si mesmo, não é no entanto uma ideia óbvia, e requer alguma crença o dizer-se que podemos pensar sobre esta questão sem que isto mexa, por exemplo, na questão da sexualidade de Cristo. A nossa visão do corpo está tão ligada ao que nos ensinaram sobre a santidade que não podemos proibir a associação do sagrado e da sexualidade na nossa tentativa de lidar connosco mesmos. Alguns podem ser capazes de separar as duas questões, mas a sua devoção não pode responder à questão de como os outros devem lidar com esta experiência.
Pela mesma ordem de ideias todos buscamos uma compreensão do Mal no mundo. Há a doença, os grandes crimes, a morte das crianças e os céus estão silenciosos e não parece haver um sentido nestas coisas. Sabemos que as grandes religiões tratam estas questões de forma tímida e indirecta, com uma pletora de imagens e de histórias, que em alguns casos, usados noutro contexto e se nos esquecêssemos que foram usadas nos livros sagrados, seriam elas próprias blasfematórias. Uma vez mais o respeito pela sensibilidade de alguns não pode ser usado, em consciência, para limitar os meios disponíveis por outros para lidar com o problema do Mal. É já demasiado tarde para isso.

As coisas que parecem sagradas para alguns, são, nas mãos de outros, objecto de brincadeira, riso, tomadas de forma ligeira, objecto de fantasia, cantadas, misturadas com todo o tipo de coisas, sonhadas ao contrário, abjuradas. Isto é o que acontece nos Versículos Satânicos. Não se trata de uma disputa teológica solene e não deve ser defendido como tal. Também não deve ser defendido como uma obra de arte, que apenas ocasionalmente inclui algumas passagens lamentáveis. Como toda a literatura contemporânea, é uma forma de procurar dar sentido à experiência humana. Esta obra toca em alguns problemas levantados pelo Islão e invoca imagens e narrativas com as quais o Islão coloriu o mundo de Salman Rushdie. Fá-lo de forma divertida e caleidoscópica, mas isto não significa que os temas sejam menos importantes para o autor do que para os milhões de crentes.
Pode ser demasiado tarde para defender a liberdade de Salman Rushdie do terror e da ameaça de assassínio, mas se apelarmos em defesa de outros como ele no mundo, deve ser nesta elevada perspectiva- que os grandes temas da religião são demasiado importantes para serem enclausurados pela sensibilidade dos que se contam como devotos. Não há outra forma de vivermos juntos e de respeitar o corpo-a- corpo com a vida que cada um de nós trava.


Jeremy Waldrom , sobre The Satanic Verses (publicado originalmente no Times Literary Supplement , 10 a 16 de março de 1989 e incluído em Political Thought. Tradução parcial. Sublinhados nossos, esperançados em que, ao menos eles, sejam lidos. Um agradecimento especial ao Fernando Gouveia, do Não tenho vida para isto.)

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