03 maio 2006

Da Amizade




Isto passou-se há uns anos e como talvez não se tenha passado apenas comigo atrevo-me a contar. S. era minha amiga desde a faculdade. Telefonei-lhe hoje a pedir para escrever isto e ela autorizou, desde que não revelasse o lugar, o ano, o verdadeiro nome dela. Nem S. nem o marido perdem tempo com blogs, ela mediu rapidamente o risco e assentiu. Naquele ano, eu tinha recebido inesperadamente algum dinheiro, não muito, e podia fazer, com alguns cuidados, uma viagem. Num estágio na Bélgica conhecera C. Palácios, uma refugiada da América Central. Tinham-lhe assassinado a família e ela fora recolhida por uma associação de livres-pensadores belgas que pagava bolsas a pessoas como ela. Se alguma vez sentira raiva ou qualquer animosidade para com os assassinos, esses sentimentos tinham-se desfeito, e C. Palácios era uma mulher calma que me contou histórias fabulosas do seu país e me ofereceu um livro escrito por homens que celebravam a natureza e uma esperança ingénua. Comprei um bilhete para esse país, não porque me movesse qualquer desejo de encontrar C. Palácios, cujo rasto aliás perdera, mas porque era o único país da América Central de que desconhecia praticamente tudo. O agente de viagens perguntou-me se viajava sozinho e insinuou o que já sabia: os custos de hotel seriam mais aceitáveis em quarto duplo. Os dois ou três amigos que desafiei não tinham dinheiro, férias, nem vontade. Nessa tarde, no acaso de um café da Baixa, encontrei S. Fomos à agência de viagens e marcámos avião e algumas dormidas. Dez dias depois partíamos.
S. era minha amiga. Tínhamos estudado juntos duas ou três tardes, conversado algumas vezes, trocado alguns livros. Dessa viagem recordo o seu estojo de toilette, o facto de ter tido uma conjuntivite e ter usado todo o tempo uns óculos graduados, de massa colorida, as saias curtas de ganga clara, as botas, e as meias sem costura, com a palavra Patagónia escrita na vertical, o apetite surpreendente e as acertadas escolhas gastronómicas, a facilidade com que ganhou o sotaque local e o modo como falava um castelhano, de tal forma que os locais fingiam uma confusão que era pretexto para intermináveis conversas. E, claro, a noite extraordinária que motivou este relato.
Já estávamos no nosso destino há mais de uma semana. Esse dia tinha sido particularmente extenuante. Chegámos quase de noite à povoação de N., arranjámos quarto num hotel. Lavámo-nos aos pedaços num lavatório e, sem comer, adormeci de puro cansaço. Quando acordei, de noite, ouvi, vindo da rua, o que parecia ser um relato de futebol pontuado por risos masculinos. Ela estava de costas para mim, virada para a janela, talvez dormisse. Cheirava bem, uma mistura de creme gordo, alfazema e suor. Pensei, sem rigor, no mundo e na história do mundo, na gente rude que edificara aquela povoação, tão contígua à densa vegetação que percorrêramos, à lama e à poeira, aos insectos e aos pássaros, aos cães famintos que corriam atrás das crianças. Pensei que éramos parte daquilo, uma parte sem nome de uma coisa sem nome, que embora quietos nos movíamos numa nave que balouçava entre dois grandes oceanos, entre planetas gelados ou incandescentes, numa noite cósmica sem manhã. E pensei que era também parte dela e ela parte de mim e a nossa respiração se juntava à respiração silenciosa das multidões da América Central, ao rumor da noite, ao zumbido intermitente de um gerador. Agradeci-lhe baixinho por estar ali comigo, num castelhano horroroso que a fez rir e voltar-se na cama. E senti por ela uma coisa a que chamarei ternura, porque ternura é aquilo que chamamos ao calor do peito quando o tempo pára e a vida e a morte, o sono e a vigília, o sonho e a inteligência das coisas se misturam. E entrámos um no outro e na noite central americana, com calma e fúria, fúria e calma, dizendo as coisas que vinham à cabeça e que no meu caso eram os nomes dos conquistadores espanhóis e no dela das divindades maias.

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