27 junho 2006

Onde faço falta

É no futebol que eu faço falta.
Aqui na repartição passam bem sem mim. Mesmo sem o Matos, a dra. Filomena dá conta do recado. Depois de ter apeado os chefes de estação do interior sinto-me, também, dispensável. Não vou reagir quando alguém (a dra. Filomena?) me anunciar que chegou a hora. Olharei para ela e saberei reconhecer a notícia na falsa comiseração, no lábio descaído, na frase com que vai iniciar a conversa. Tirando o beiço, era assim que eu fazia. À tarde, no café, desabafava com os outros:
- Tive de apear o Gonçalves, de Eira-Pedrinha.
-Esse gajo já não fazia nenhum. – consolavam-me.
Mas era chato. Dizer a um homem que já não é necessário.
Não são necessários os corretores de seguros da Allianz, que despediu sete mil. Não são necessários os operários da Opel. Não são necessários metade dos professores universitários, sobretudo com Bolonha. Não são necessários, aliás, professores, com tanto especialista de educação, da Clarinha ao Daniel Oliveira, passando pelos meio-reaças meio de-luxe. Não são precisos têxteis, nem maquinistas, nem padeiros. Para a actual produção mundial chegam os patrões e os chineses, que há muito seguem os conselhos do senhor Jean-Claude Tricher e baixaram os custos do trabalho, moderaram os salários, com responsabilidade, para não agravar os desequilíbrios externos.
Mas no futebol fazemos todos falta. Parece que não há festa sem os estádios cheios. Somos todos iguais fora do camarote de honra. Em Nuremberga, na Praça Sony, no Bar Dilema.
Acho que não ganhavam se eu não estivesse a ver e a sofrer assim.

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