05 junho 2006




A questão de Ratzinger em Auschwitz (Onde estava Deus quando isto sucedeu?) mereceu vários comentários. Numa crónica inteligente e elegante, Rui Tavares diz que Deus estava onde está agora. VPV considera a questão deslocada. (Ratzinger devia perguntar onde estava a Igreja, entre a ascensão do partido nazi e o fim da guerra.)
Este fim-de-semana estive numa cidade de província a que chamarei Vila do Conde. Numa esplanada, ao cair da tarde. Havia um edifício de Cassiano Branco (ou Cotinelli Telmo ?) de vagas cores amareladas, embrulhado para demolição, reflectido nas paredes de um casino vazio. Na rua passavam velhos. Doentes. Um homem com marcha cerebelosa. Mulheres disformes, de óculos escuros e voz empastelada. Um casal com tatuagens rivais, de olhar agressivo. Duas velhas, de corsários e sapato alto. A empregada desdentada. Um cavalheiro a quem ela dirigiu palavras claras de sedução, olhou-a de alto a baixo, em silêncio. Nenhuma criança. Nenhuma beleza. As toalhas de mesa estavam húmidas. Nas mesas os cadáveres do costume, a mesma voracidade. O problema não é onde encontrar Deus em Auschwitz. Onde está Deus em Vila do Conde?

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