28 julho 2006

325 milhões de francos

Aquilo a que chamam o doping faz parte da preparação física dos atletas, dos clubes de bairro até à alta competição. O Tomás treina futebol duas vezes por dia. No treino da tarde o preparador físico dá dois comprimidos a cada rapaz. O Tomás é medroso e esconde-os no bolso, ou finge que vai tomá-los à casa de banho. Também bebem sumos energéticos.
O esforço pedido a Tomás não é grande. Mas o que se pede aos futebolistas é que corram noventa minutos sem parar, suportem contusões, distensões, abrasões, estiramentos. Sempre de cabeça fria.
Os investidores pressionam os dirigentes que pressionam os treinadores que pressionam os preparadores que pressionam os jogadores. Os adeptos e a imprensa especialista, uns inocentes, assistem.
Assim, os nossos heróis dopam-se.
Eu uma vez dopei-me para subir da Covilhã à Torre.
Testosterona e outros anabolizantes. Depois anfetaminas. E Epo na veia.Não cheguei ao Sanatório.Mas aumentou o meu respeito pelos desportistas de alta competição em geral e pelos ciclistas em especial.
Armstrong e Ulrich, os dois heróis do Tour, desapareceram no opróbio. O Tour ficou entregue a ciclistas médios, limpos e esforçados.
Já ninguém grita, de um bar à beira da estrada:
- Força, Coppi.
Bernard Busard, seduziu pacientemente Marie-Jeanne Lemercier. Mas os netos não tiram férias para acampar no Tourmalet ou no Aubisque. Conhecem melhor os colos de Val d’Isere, na semana de Carnaval.
Agora parece que o camisola amarela do Tour limpo também acusa testosterona. As almas do costume vão apelar ao fair play, à competição sem truques. Há nesta história muita testosterona, ou falta dela. O Tour, a Vuelta, o Giro morreram.




325 OOO francos,
Roger Vailland
A história de um operário ciclista e do seu amor determinado, do Tour de France no tempo de Roger Pingeon e antes da invasão da Hungria.

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