13 outubro 2006

Anna, na sua morte

No dia da execução ela entrou em casa com os sacos do supermercado, enquanto deixava o carro parado em frente, talvez sabendo que tinha sido seguida, como tantas vezes acontecera, um homem espiando-a, uma mulher cuja cara reconheceu, pessoas dos serviços secretos de Putin, terá pensado, afinal iguais às do KGB, iguais a todos os polícias que seguem pessoas em todas as cidades vigiadas do mundo, e no fim do dia fazem relatórios onde descrevem as coisas simples que fizemos, os cafés onde entrámos, as pessoas que cumprimentámos mais demoradamente, o livro que folheámos na livraria, e tecem comentários sobre os nossos encontros e desencontros, a nossa solidão e as nossas preferências literárias para superiores que os lêem e entregam a outros superiores que decidem o dia em que a nossa prisão é oportuna, o tipo de interrogatório que nos irão fazer, quem prenderão connosco. Mas naquele dia era diferente. Ela deixou de os ver à saída do supermercado e ao chegar a casa já não pensava na sua vida vigiada, mas em coisas prosaicas como a salada do almoço e o preço do café da Etiópia. Abriu o elevador, deixou em casa os sacos de compras e desceu para arrumar o carro, a porta do elevador abriu-se no hall de entrada e viu o homem do supermercado e uma pistola com um cano enorme virada para ela, não ouviu os tiros, viu a cara do seu assassino e pensou nos milhares de mortos da Tchetchenia que tinham morrido assim, morrido na cara dos assassinos, sabendo apenas que morriam sem tempo para gritar, que os gritos não trariam nenhum auxílio, que ninguém os ouviria porque as pistolas dos assassinos silenciaram as hostes dos anjos. Caiu para a frente e o homem debruçou-se sobre ela e deu-lhe, na nuca, o tiro com que os profissionais selam o seu trabalho.

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