21 outubro 2006

A cidade de A.


Carol Rudyard, Unreal City


Na cidade de A. as famosas bicicletas são invisíveis, embora circulem vistosos veículos motorizados, provavelmente destinados à recolha e reparação, cuja função evoluiu para a propaganda do Projecto de Cidade Saudável . Se perguntarmos pelas bicicletas, os residentes, com aquele ar de amnésia de paisagem, respondem invariavelmente que estão na Estação. Mas ninguém chega de comboio à cidade de A. Nas ruas, as pessoas não cruzam os olhares e parecem ter pressa. Algumas mulheres começaram a usar véu. Às sete da tarde as ruas ficam desertas. A essa hora os restaurantes abrem as portas . Ao entrarmos informam-nos da hora de encerramento da cozinha, como se nos tomassem por espanhóis. Esta sensação de fecho eminente, transmitida por luzes que se apagam, pelas mesas desertas, pelo ar do empregado que traz na mão um detector de fumadores e se curva como se viesse dizer uma má notícia , estende-se às pastelarias. Os únicos pastéis são de ovos, recheando hóstias. A Santa padroeira da Cidade não é bem uma santa. Explicaram-me que era uma quase-Santa, uma SCUT a que só faltaria a portagem. Sobre o canal há pontes que parecem decorativas. O interesse em mudar de margem, no canal, é reduzido. Numa praça havia uma galeria. Vazia. Pior que vazia. Com um único visitante. Um reformado. Um pensionista. Sozinho. Como eu. Como todas as pessoas da cidade de A. Excepto à noite, junto a uma fonte, quando os caloiros de Novas Tecnologias, se entregaram a um grupo de encapuçados. O ritual consistia em encher as cabeleiras fartas das novas alunas com musgos e líquenes de cor duvidosa, que boiavam na fonte. Elas gostavam. A coreografia era medieval, com velas, silêncios e gritos de combate. A veterana a quem a direcção do sucesso tinha sido entregue deve ter visto mais filmes de campos de concentração do que sebentas de novas tecnologias. A sua piada favorita era: -Não se abana a cabeça. Cabeça não é pilinha! Mesmo sem abanar a cabeça algumas caloiras pareciam lindas. Olhando para as veteranas percebemos que o curso de NT deve ser difícil.
Também há, na cidade de A., um cibergabinete, que deve ser da autarquia. O recepcionista pergunta se temos password. Inscrevemo-nos e apontam-nos uma fila de espera. Podemos ficar a ver os putos a jogar ou um grupo de seniores, inscritos nos programas da Universidade da terceira idade, a fazer o trabalho de casa. O ambiente ideal para uma investigação de sociologia não rural.
Não há crianças no centro da cidade de A. O Teatro Municipal anuncia espectáculos que decorrem em outras cidades. Numa praça estão quatro estátuas. A mulher do ramo, o fogueteiro e provavelmente dois marnotos. Tenho de ver, se voltar à cidade de A.
A cidade de A. é triste. Só uma mulher se ria, mas não era de lá.

5 Comentários:

Blogger a rasar o ceu disse...

nesta cidade passeei de A a Z....

e penso "comprar" bilhete de ida e volta...


gostei bastante.


bom dia.

domingo, outubro 22, 2006  
Blogger Carla de Elsinore disse...

dizem que já não há marnotos, é provável que tenhas visto fantasmas.

por brincadeira - pelo menos sempre o entendi assim- os naturais de A. gostam de chamar-lhe capital do império. eu penso que talvez tenham razão, do império caído.

domingo, outubro 22, 2006  
Anonymous Anónimo disse...

Não estou nada de acordo com esta análise que fazes da cidade de A. onde há tantos anos vivo. A cidade de A. não é uma cidade triste. Estiveram dias tristes, como a maior parte das pessoas considera os dias de chuva... quando chove, as pessoas que gostam de sol e claridade, dizem: as coisas todas ficam tão tristes, tão cinsentas, tão pesadas.
Pode ser que assim seja. Mas a cidade de A. não é triste, Luís. Talvez possas voltar num dia de sol e observar as bicicletas brancas pelas ruas, as esplanadas com gente, as mulheres sem véu e os homens também, já agora. As luzes apagam-se e as cozinhas fecham-se naturalmente, como na tua própria casa. Há outras casas e lugares onde as luzes não se apagam cedo. A Santa (Joana) ainda bem que é quase santa e não santa. Embora o préstimo seja o mesmo. A praxe é tão triste como na tua cidade. Como em todas. A investigação na cidade de A. faz-se bem e com melhores condições que na cidade de C. Não é costume usar-se o gabinete do A. Digital para isso, felizmente. Há muitas crianças na cidade A., mas à noite dormem. Como as crianças da maior parte das cidades. Como as crianças que ainda podem dormir. O teatro tem espectáculos algumas vezes. Já teve mais, com a anterior direcção. Mudam-se os ventos políticos e tudo se transforma (neste caso, para pior)... ainda assim, vi neste teatro espectáculos de que nunca me esquecerei. E eu vejo muitos espectáculos em muitas cidades, até na tua. A Navio de Espelhos parece que fechou, temporariamente, esperamos. Já há pouco sal em A. Há muitos anos, na primavera toda a cidade era dominada pelos montes brancos. Agora choramos menos. Aqui, como em toda a parte. A cidade de A. não é triste. Já disse, choramos menos. Não costuma ser o choro a medida da tristeza? Nas salinas nadam agora peixes. E muito lixo.
A cidade de A. não é capital de nada. É apenas uma cidade. Como as outras. Até como a tua. Que diz ser a capital do conhecimento! Que conhecem os habitantes de C. que os de outras cidades desconhecem. Rir não tem tempo. Nem lugar. Talvez eu seja a única mulher que ria naquele dia. Mas acho que não era eu. Eu sou de A. Eu já sou de A.

domingo, outubro 22, 2006  
Blogger A Rapariga disse...

A partilhar fantasmas tão certos e seguros de que somos a última tendência, de que as imagens a preto e branco suscitem nos nossos dias um apetite de lágrima fácil, que somos estética infalível para certos dias de certas efemérides.

domingo, outubro 22, 2006  
Blogger prozina disse...

vou voltar

segunda-feira, outubro 23, 2006  

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