23 outubro 2006

A mergulhadora


Rick Raymond


Era de noite e a rapariga estava debruçada sobre o bebedouro do xafariz, segura pelos braços dos encapuçados. Perguntaram-lhe se sabia que ia renascer e a sua resposta não foi perceptível. Depois quiseram saber o nome, o nome verdadeiro, o novo nome. E ela respondeu, com uma voz que contrastava com o tom solene dos encapuçados. Era a voz de alguém que vai nascer, que saiu de um território de farsa para outro onde não há lugar para o riso boçal, nem é certo o reflexo dos espelhos, o peso dos objectos ao cair, o eco das vozes se chamarmos. Uma voz sem ênfase, como uma pedra lisa onde a palavra se inscrevesse, solidão sem remédio, sem a esperança e o sofrimento do amor, sem a doçura do crepúsculo. Onde desconhecemos a razão e a regra. E não temos mapa para os trilhos. O nome que a voz dela disse foi:
-A mergulhadora.

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