07 novembro 2006

O desastre, tranquillitas.

Uma mulher, uma puta, está numa rua da cidade que ostenta o pomposo nome de Avenida N., no seu lugar habitual de trabalho, junto à porta de um edifício onde “se alugam quartos”. É meia-noite de sexta-feira, uma noite que costuma ser boa para ela. Um carro pára junto a um semáforo. Depois outro. O terceiro carro não tem tempo para travar. Ouve-se o chiar dos pneus e o embate. Ferros contra ferros, vidros partidos, silêncio. Do primeiro carro sai um homem. Abrem-se as portas dos carros seguintes. A última a sair é uma rapariga. Dirige-se para o passeio oposto àquele em que a mulher, a puta, os contempla, encosta-se a um portão, de costas para a Avenida. Chora, vomita, telefona. Um homem põe um triângulo na rua, atrás do carro sinistrado. Outros falam entre si. O carro que embateu está muito danificado. O outro, uma carrinha de alta cilindrada, quase incólume. Não se trata de resiliência mas de outro poder dos materiais. O carrito utilitário esmagou-se na traseira autoritária do break alemão. Os homens deslocam-se de um carro para o outro. Parece que sabem o que fazem. Falam baixo, não há discussões. Gente assim pode colidir. A puta desinteressou-se pelo desastre. Um homem passa e ela vê-lhe a cara. Não é um cliente. Habituada a ler caras, a mulher, a puta, vê na cara dele um desastre maior que o da Avenida N. A mulher é filósofa. Como Séneca, ela chama eutimia ao “bem estar da alma” e é assim, tranquila, que se sente, sem clientes, na noite do desastre.

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