03 dezembro 2006

Aluição na Baixa


Implodiu um prédio no centro da cidade, na orla da Baixa. Em tempos, nesse sítio, nas férias grandes, um miúdo aprendeu dactilografia em Teclado Hcesar, exame com prova cronometrada, teclas negras e uso dos dez dedos. E no andar de cima havia o consultório de um dentista de voz bondosa, broca sibilante e desconhecimento absoluto da analgesia. Agora o prédio inclinou-se para uma rua escura que ladeia a traseira das imponentes construções da Visconde da Luz e, como escreveu a jornalista que regista a implacável decadência da cidade, aluiu.
Ninguém ficou ferido. Um milagre, diz-se.
Mas quem poderia ficar ferido, quando um prédio alui, na Baixa da cidade? Os operários que procediam a obras de reparação no interior do edifício em derrocada, saíram a tempo, aos gritos. Mostraram uma capacidade de diagnóstico e previsão que deve ter feito inveja aos técnicos da Câmara, responsáveis pela vistoria da semana anterior. A única moradora fora evacuada uns dias antes (e instalada onde a Segurança Social, a pedido da Protecção Civil determinou). Uma retrosaria estava aberta nas redondezas e um bar também. Mas ninguém circulava nas ruas, há muito tempo que a retrosaria não tem clientes e o bar abre mais tarde.
O que resta da Baixa de Coimbra, as ruas que saem da Praça Velha para a Portagem, a Estação e o Bota Abaixo, a rua que liga Sansão ao Terreiro da Erva, são veias onde não corre nenhum sangue. Os moradores que restam esperam pela Segurança Social, o camartelo ou o aluimento. Há um comércio residual, umas tascas que vivem dos jantares dos estudantes, o salão dos Horrores, o Príncipezinho muitos anos depois da raposa ter ido à vida. Só a casa do Zé Neto mantém a dignidade da açorda com petinga e joaquinzinhos. Há, claro, um Programa de Recuperação, animado por pessoas estimáveis e os funerários do costume. Mas a Baixa está morta. Ninguém, por milagre, ouvirá os aluimentos que se seguem. Os braços dementes da cidade sem centro crescem agora junto ao Estádio e aos Hospitais, no antigo planalto da Guarda Inglesa, na Portela, nos retails do subúrbio.

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