26 dezembro 2006

Não lhe chega ser primeiro-ministro



Ia de carro quando uma das rádios passava a alocução natalícia do primeiro-ministro, em versão reduzida. Se é tradição, não me lembro. Julgava que no Natal falava o clero. O texto era absolutamente desprovido de interesse. Como Sócrates é o primeiro-ministro de todos os portugueses, o conteúdo das suas mensagens de Natal tem de ser assim. O objectivo é reforçar nos ouvintes um condicionamento natalício que se presume estar democraticamente difundido e conduzir às zonas de paz, amor e rabanadas em que todos somos irmãs e irmãos. O que era novidade, no discurso de Sócrates, era a tonalidade e a altura da voz, o ênfase, a duração das pausas. Como se o homem tivesse feito um curso rápido com o Super Psi Sá. A ambição de Sócrates é desmedida e o êxito que lhe atribuem está a fazer-lhe mal. O homem já não quer que votemos nele. Quer engatar-nos. Se o regime fosse monárquico, ou na Presidência da República estivesse uma mulher a sério, ele podia ter a vantagem de ouvir o comentário que, na Rainha de Stephen Frears, Isabel II fez a Blair :
- Não se excite tanto com a popularidade que a procissão ainda vai no adro.

(Manet, 1882)

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