30 janeiro 2007

A Ilusao pedomorfica

A vida humana começa no espermatozóide. E a Igreja foi sempre consequente ao perseguir a masturbação.

A vida humana começa na fecundação. Dizem alguns. Mas o que é o óvulo ? E o espermatozóide? Células vivas. Humanas, claro. De sapo é que não são, nem de bagão. Porque é que um espermatozóide tem menos dignidade que um ovo? Porque é que o óvulo só é apreciado depois de penetrado?

Se a destruição dos espermatozóides não se afigura um crime e os espermicidas, as barreiras de esperma e o coito interrompido não foram alvo de sanção especial, o que separa o espermatozóide e o óvulo do ovo? O número de cromosomas? A dinâmica especial que se criou?

A mórula chega ao útero e não nidifica porque encontra um DIU. O DIU, como os padres descobriram com sagacidade, é um dispositivo abortivo. A mórula, como o ovo, como o óvulo e o espermatozóide é vida. Humana, no caso. Mas a destruição das mórulas e dos blastocistos não é vista como aberrante pelo comum das pessoas


A questão que parece preocupar-nos, não é, assim, quando é que há vida? Ou quando é que há vida humana? É: quando é que há vida humana semelhante à nossa?
A consciência humana, que criou deuses antropomórficos, só pode imaginar vida humana em seres assim reconhecíveis. Daí o apelo aos cardiologistas para nos assegurarem que já bate um coração. Se já bate um coração, se tem cinco dedos, se é um homúnculo, então é um ser humano. Já está formado. No século XIX, uma teoria embriológica dizia que os seres humanos passavam pelas etapas filogenéticas da evolução, até chegarem á formatação do mamífero bípede cabeçudo. Se isto fosse verdade, o feto de oito semanas seria um peixe e não teria sucesso nas bancas do Não.


A verdade é que somos pedomorficos. Temos um fascínio absoluto pelas formas jovens. A imagem do ser liliputeano que o Não distribui é mais apelativa que o problema de saúde pública das mulheres adoecendo, ou arruinando a saúde, por um aborto clandestino. Se lhe juntarmos o cromo da Nossa Senhora, a mãe de todos, a chorar, temos um cocktail explosivo. A razão estremece à porta destas evidências.

Publicado no Blog Referendo Sim (sim-referendo.blogspot.com)

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