01 janeiro 2007

O tecto, nos Correios

Trabalho numa repartição dos Correios. Daquelas que escaparam à modernização. Sombria, mármores do Pleistocénico, humidade nas paredes, ratos, baratas e vermes da terra. Hoje caíu o tecto da sala de espera. Gostava de começar o novo ano de outra maneira. Mas foi assim. Caíu um bocado da placa. Pedaços de 970 gramas, 1250 gramas, 670 gramas. Onze setas, desferidas de três metros de altura, aguçadas, pontudas, de tijolo, cimento e caliça. Partiram-se no chão,aos pés da cadeiras de uma zona da sala de espera, junto a um aparelho de televisão. Felizmente não estava ninguém. Já pouca gente utiliza a repartição onde eu trabalho. Preferem outras mais vistosas, convenientemente privatizadas. Para serviços mais pesados, mais caros, operações a que atribuem gravidade, ainda aqui vêm. Não era o caso, nesta estação do tempo. Felizmente a sala estava vazia. Éramos poucos a limpar os cacos, encerrar a sala, praguejar contra o governo. Em tempos fomos revolucionários, por aqui. Queríamos Correios para o povo. Só boas notícias, aforros, telefonemas para países em flor, encomendas da Armani Red. Hoje somos reformistas de escalão baixo. Enquanto limpávamos os cacos, desejávamos que destroços destes caíssem nos ombros pesporrentes do responsável dos Correios ou dos seus diligentes secretários.

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